Resenhas

Iggy Pop – Post Pop Depression

Parceria entre Iggy Pop e Josh Homme funciona em novo álbum

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Ano: 2016
Selo: Loma Vista
# Faixas: 9
Estilos: Rock, Rock Alternativo
Duração: 41:48
Nota: 4.0
Produção: Josh Homme

Este é o 17º álbum do velho Iguana. Depois de uma vida a serviço do esporro sônico, algo que nem sempre foi bem resolvido e empreendido, Iggy Pop está de volta com uma pequena declaração de propósitos. Ao seu lado, está Josh Homme, um nome referendado pelas Agências de Risco no Rock, talvez o mais valorizado nesta seara, à frente mesmo de David Grohl. Se um trabalho tem a participação de um destes dois sujeitos, a imprensa musical do século 21 já prepara seus elogios, independente do que venha a ser gravado. Felizmente, Homme é um cara bem mais introspectivo que o líder de Foo Fighters, procurando manter-se nos bastidores ou, quando a situação obriga, no palco e na guitarra/baixo/teclados. Este é o caso de Post Pop Depression, no qual a dupla divide os méritos e o produto final é de boa qualidade. Talvez ótima.

A ideia deste álbum nasceu de Iggy, que convidou Josh para colaborar livremente. Os dois entraram em estúdio com rascunhos de canções, compuseram em parceria lá mesmo, chamaram Dean Fertita (Queens Of The Stone Age, The Dead Weather) para os teclados e Matt Helders (Arctic Monkeys) para a bateria, dois homens de confiança de Josh, no intuito de conferir massa sonora dura e pesada para a obra, que ganha sustentação e legitimidade, sustentando as assinaturas sonoras, tanto de Homme, quanto de Iggy. O que temos é uma espécie de “Iggy Pop caminha nas areias do Deserto”, levando em conta os tempos de Josh no comando de seu velho grupo Kyuss e de seu atual, Queens Of The Stone Age. Mais que isso: a compreensão entre ambos os envolvidos é total e natural. Nada soa forçado, até porque está longe disso.

O parâmetro de comparação é o Iggy setentista, no sentido Lust For Life/The Idiot do termo, não o Iggy furioso de The Stooges e tudo funciona bem. Há a voz cavernosa intacta, a sonoridade oscilando entre o Rock inteligente da corrente Bowie/Eno e um toque contemporâneo sujo e empoeirado, cortesia de Homme. Provavelmente é a melhor colaboração que Iggy firma desde os tempos em que estabeleceu boas relações com o próprio David Bowie. Há boas canções por aqui, todas bem amarradas e com espaço para brilho democrático de todas as partes. Gardenia, a segunda faixa, por exemplo, é uma belezura de canção com arranjo que remete ao início dos anos 1980, com baixo, teclados e guitarras elegantíssimos, sobrevoados pela voz de Iggy, totalmente no espírito bowieano, lembrando do quanto a presença do Iguana foi importante para o Cameleão fazer essa transição dos anos 1970 para os 1980. É a melhor criação da dupla Homme/Pop, sem dúvidas.

Todas as outras oito canções têm seus méritos próprios, conspirando para a boa apreciação de intenções da dupla. A abertura Break Into Your Heart tem letra desesperada e se credencia como um rockão em câmara lenta, sujo e mal encarado, ainda que tenha um viés de amor desmedido em sua construção e execução. American Valhalla tem tecladinho lúdico na introdução por alguns instantes e engata numa levada tipicamente QOTSA, com a voz de Iggy soando como o próprio tempo. In The Lobby equilibra as duas matrizes musicais presentes, o deserto atual e o glamour falso dos 1970’s, em doses iguais, funcionando bem. Sunday mescla certa leveza com uma pequena coleção de riffs oferecidos por Homme, com algum parentesco distante com o Funk branquelo do início dos anos 1980, enquanto Vulture intercala refrão barulhento e andamento sinuoso/sorumbático. German Days é pepita dourada de bateria e guitarra, com algum groove, algum brilho, algum lamento sob a luz da lua. Chocolate Drops tem um piano belo e um parentesco com as baladas que David Bowie costumava fazer no início de sua carreira, com um arranjo atestando tudo no lugar e funcionando bem. O encerramento com Paraguay é a confirmação desta onda de inspiração bem resolvida, compartilhada entre Pop e Homme.

O que podemos concluir então? Post Pop Depression é um senhor disco de Rock, moderno, bem feito, com motivos de sobra, inspiração e naturalidade por toda parte. Não só é o melhor trabalho de Iggy em muitos anos, como credencia Josh Homme a passar para o primeiro time do Rock. Este também é um de seus melhores trabalhos, desfazendo qualquer cisma que sujeitos chatos – como o articulista, por exemplo – possam ter em relação a ele. Ouçam sem hesitação.

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ARTISTA: Iggy Pop
MARCADORES: Rock, Rock Alternativo

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.