Resenhas

Indigo de Souza – Any Shape You Take

Segundo disco da artista americana usa cacoetes do Bedroom Pop a favor de experiência eclética e cativante

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Quando pensamos nas sonoridades que têm sido tendência entre a geração mais nova, o Bedroom Pop certamente aparece em posição de destaque. Unindo a acessibilidade de ferramentas portáteis de gravação a uma nostalgia de décadas passadas, o gênero rapidamente criou uma linguagem própria por meio de milhões de stories no Instagram e TikTok. Aos poucos, o uso de sintetizadores datados, simulando imperfeições do analógico, foi se tornando quase uma exigência. O Lo-Fi já não é mais um adereço, mas um padrão que inevitavelmente coloca o gênero em um processo de uniformização. O Pop feito nos quartos, aos poucos, passa a impressão de que todos os quartos são os mesmos. Entretanto, há quem reme no movimento contrário dessa homogeneização – não por “ser legal ser diferente”, mas porque uma sonoridade uniforme é simplesmente inconcebível com o tanto que precisa ser dito. É isso que a jovem Indigo de Souza nos traz em suas composições: a construção de um refúgio seguro que mantém sua essência mutante.

Seu primeiro disco, de 2018, é o típico retrato de uma digestão emocional intensa da juventude, nomeada com o simples, porém potente título, I Love You Mom. Em uma apresentação de Indigo de Souza para o canal Audiotree, seu penteado desajeitado e o olhar inocente podem até aparentar despreocupação jovial ou quem sabe “ingenuidade”. Entretanto, bastam os primeiros acordes para compreender que isto não passa de uma impressão inicial longe da realidade. Estes acordes são suficientes para entender que, por trás de todo o ar despretensioso – visual e sonoro –, há uma artista que coloca um caldeirão de referências à mesa. O Bedroom Pop acaba sendo uma etiqueta genérica em cima da verdadeira riqueza de Indigo e, se seu disco de estreia introduz este mundo plural e rico, o segundo trabalho confirma contundentemente.

Any Shape You Take é o primeiro trabalho da artista dentro do selo Saddle Creek, nome de tradição quando a questão é trazer artistas com sonoridades que evocam emoções fortes. Mas esse não é um trabalho que cai nas armadilhas dos clichês do Bedroom Pop. Ao invés de se jogar palidamente na nostalgia e repaginar ecos de décadas distintas, Indigo cria um disco eclético e de conceito difuso. Algo que permeia o Pop, mas encontra raízes no Emo, no Rock adolescente dos anos 1990/2000, no Synthpop, no Dreampop entre tantos outros. Ela não parece tão determinada em trazer o som do Bedroom Pop, mas, sem dúvidas, encarna a filosofia do gênero de trabalhar dentro das paredes da zona de conforto. A grande ironia é que sua zona de conforto é composta por tantas abordagens diferentes e ressoa tantas histórias e sonoridades distintas. E o curioso é que, mesmo explorando diferentes terrenos, este não é um trabalho experimental por excelência. Indigo não tem a pretensão de explorar ao extremo as fronteiras de cada linguagem musical – ela apenas traz para perto os elementos que contribuem para sua narrativa.

O vocal autotunado de “17” é a porta de entrada para o imaginário de Indigo e, particularmente nesta faixa, estamos diante daqueles sintetizadores mais estereotipados do Bedroom Pop. Já “Die/Cry” conta com as letras urgentes e exageradas do amor juvenil como propulsor para a base repleta de guitarras Emo/Indie. “Bad Dream”, por sua vez, é mais pautada no Rock Alternativo do início dos anos 90, um híbrido entre a potência de Pixies e a melodia de Cocteau Twins. O single “Hold U” parece ter sido escolhido para representar o disco por ser um das faixas em que somos expostos a uma indecifrável estética, caprichada de elementos dos anos 1980, um suíngue Alpha FM e uma precisão milimétrica do Soft Jazz 90. Por fim, “Kill Me” encerra o disco com uma última e súbita explosão, amarrando da jornada emocionante que é Any Shape You Take.

No flerte desimpedido e prendado com diferentes gêneros, Indigo de Souza se consolida como uma artista que vai além da uniformização do Bedroom Pop. O título Any Shape You Take não é por acaso: som e narrativa se manifestam de diferentes formas ao longo do repertório. E é a partir da ausência de definições precisas que o disco e a história de Indigo ganham força.

(Any Shape You Take em um disco: “Hold U”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.