Resenhas

Injury Reserve – Injury Reserve

Em sua peculiar esquizofrenia, Injury Reserve prova que pode trilhar novos caminhos sem perder o contato com suas raízes

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Ano: 2019
Selo: Loma Vista
# Faixas: 13
Estilos: Alt Hip Hop, Experimental
Duração: 38'
Nota: 3.5
Produção: Corey Parker

Quando o Injury Reserve apareceu na cena, era difícil imaginar que eles trilhariam um caminho cujo destino final (até então) seria o disco autointitulado que acaba de ser lançado. O trio de Phoenix, no Arizona – lugar, curiosamente, pouco comum para o surgimento de artistas de Hip Hop – investia no Jazz Rap em seu primeiro álbum Live from the Dentist Office (2015). Nos discos subsequentes, outras vertentes ainda foram exploradas. Em Floss (2016), por exemplo, as inspirações se inclinam para o tal Hip Hop sulista que tem o Outkast como seu maior expoente. No entanto, em Injury Reserve, a banda desemboca decididamente no subgênero Pop Experimental do ritmo que os trouxe até aqui. Há quem diga que isso possa ser influência ou resultado deste LP ter sido lançado por um selo de Indie Rock, o Loma Vista. Mesmo assim, é possível imaginar que, naturalmente, em meio às suas explorações sonoras, os integrantes do grupo (Stepa J. Groggs, Ritchie With a T e Parker Corey) tenham flutuado para esse novo espaço.

As primeiras três faixas do disco chegam atravessadas. “Jawbreaker”, a segunda, fala sobre os hypebeasts e a geração Instagram. Com participação de Rico Nasty, é a mais palatável do trio que abre o álbum. Na sequência, “GTFU” tem a agressividade que se espera de um feat. com JPEGMAFIA e Cake da Killa. A música, inclusive, poderia facilmente figurar em algum trabalho do Run The Jewels – referência absoluta em letras violentas e beats agressivos. Em sua primeira metade, “GTFU” mistura samples de latidos de cachorros e cortes metálicos até que, sem aviso, a faixa muda de mood drasticamente. Daqui até o final, ela segue mais calma e o contraste, neste caso, veio a calhar.

Algumas tracks mais pretensiosas, contudo, são quase descartáveis. É o caso de interlúdios como “QWERTY Interlude”, “Hello?!”, “Gravy n’ Bictuits” e, principalmente, “Rap Song Tutorial”. A última é uma tentativa relativamente mal sucedida de fazer piada com o processo por trás de uma canção de Rap. Para uma audição única, pode até ser interessante no sentido de trazer para o disco um auto-deboche. Mas, não passa muito disso. Felizmente, as participações especiais elevam o trabalho. “Wax On” conta com ninguém menos do que um dos poucos verdadeiros gangsta rappers vivos: Freddie Gibbs. Em sua aparição, ele se torna responsável por alguns dos melhores versos de Injury Reserve. O tom sombrio da faixa em que colabora se assemelha ao sombrio Shadow of a Doubt (2015) de sua autoria.

“Jailbreak the Tesla”, por sua vez, parece ter sido feita para figurar em playlists do tipo “Novo Hip Hop” haja visto suas invencionices nas batidas. Elas são tantas que o resultado final é uma música que poderia até compor algum trabalho da parceira venezuelana de Björk, Arca, ou da britânica SOPHIE. Aliás, a escolha pouco usual de samples e a forma como eles são apresentados pelo produtor Corey Parker aparecem aqui com uma abordagem mais Indie. Erros parecem ser, muitas vezes, induzidos para adicionar excentricidade ao experimento.

Se o trio do começo indicava um disco “porrada”, as três faixas finais desmentem a proposta. De modo geral, elas carregam o LP com um pouco de Jazz que, mesmo desidratado, agrada. “Best Spot in the House” remonta às melodias melancólicas pelas quais a banda tornou-se conhecida enquanto “New Hawaii” e “Three Man Weave” só arrastam essa tendência até o desfecho do disco. Nostálgicas, estas músicas mostram que é possível a coexistência entre as diferentes facetas desta banda plural e até meio esquizofrênica. Mesmo assim, vale a pena lembrar que são poucos os artistas que conseguem manter esse espírito e manterem sua relevância. Por hora, a bagunça ainda faz sentido.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.