Resenhas

Inventions – Maze Of Woods

Segundo disco da dupla propõe alternativas para a música eletrônica com sucesso

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Ano: 2015
Selo: Temporary Residence
# Faixas: 8
Estilos: Post Rock, Instrumental, Eletrônico
Duração: 40:12
Nota: 3.5
Produção: Mark E. Smith e Matthew Cooper

Este é o segundo fruto da parceria entre o guitarrista Mark T.Smith (Explosions In The Sky) e do multiinstrumentista e produtor Matthew Cooper, que, sob o nome de Eluvium, já tem dez anos de carreira e vários álbuns lançados dentro desta seara da música Pop, Eletrônica e “viajante”. As aspas se aplicam porque, hoje em dia, o condição de estar desconectado da realidade e adentrando novas possibilidades mentais por conta da música é algo quase impossível, dadas as circunstâncias de audição que a modernidade nos proporciona. Quero crer, entretanto, que é possível embarcar nesse meio de transporte mental em pequenos momentos do cotidiano, seja a bordo de uma condução na cidade, um metrô, um ônibus, ou, simplesmente, fitando um por de sol sobre os prédios ou contemplando o inverno se aproximando pelo céu. Porque Maze Of Woods o segundo álbum de Inventions é feito para pequenos teletransportes, coisa de curto alcance, mas eficaz.

A sonoridade da dupla é fruto da união de guitarras com programações eletrônicas precisas e intencionalmente “pequenas”. O som que Cooper tira de suas engenhocas parece servir de interlocutor numa conversa em ambiente pequeno, um quarto, uma sala de espera, uma mesa de café da manhã. Os blips e tóins dialogam de perto com o ouvinte, dando a impressão que estão dentro de nós mesmos. O resultado é belo, próximo e desolado ao mesmo tempo. Não dá pra saber de a dupla tinha em mente a reprodução de uma realidade meio estéril em forma de som, muito parecida com o filme Ela, com Joaquin Phoenix ou outra obra distópica do gênero. Mesmo que seja interessante, a equação guitarras + eletrônica pode esconder armadilhas, todas dribladas com eficiência por algum truque na produção. Por exemplo, quando estamos caminhando pela manhã mormacenta que é Springworlds, do nada, surge um coral de vozes fantasmagóricas de dentro do nevoeiro, tornando a caminhada sob o sol encoberto algo muito mais misterioso e, ao mesmo tempo, coerente.

A faixa de abertura, Escapers, alterna espasmos de teclado com batidas sem muita lógica, que poderiam ser de um console de Atari 2600 com mal funcionamento, enquanto vozes sintetizadas aparecem como se fossem transmitidas por um serviço de alto-falante de alguma estação ferroviária. O uso de vocais, sempre sintetizados e processados, aliás, é um grande trunfo do álbum. Peregrine, por exemplo, combina pianos matinais com vozes que oscilam entre o angelical e o caótico, misturando o andamento com cellos sintetizados e programações intermitentes. Slow Breathing Circuit é outro exemplo de uma canção “em tom menor”, com tonalidades cinzentas e imprevisibilidade em boa dose, que se confirma no bom uso do silêncio ao longo da canção, alternando climas como se deve. A Wind From All Directions é elemental, com sons e propostas que fazem o resenhista abaixar o volume do sistema de som para conferir se o barulho que está no ambiente é de um temporal lá fora. Além disso, uma procissão de sons em aparente desordem dá a tonalidade – atonal – da canção.

Wolfkids desnorteia o ouvinte que pensa em mais um exemplo de música em lenta rotação – ou em nenhuma rotação – e sai com uma batida dançante acima de qualquer suspeita, temperando o todo com um indistinto feeling para a pista, seja ela em qualquer lugar. Moanmusic reduz o ritmo e atira o ouvinte num turbilhão gentil de microfonias e efeitos nunca repetidos e sempre curiosos, embalados por pianos vindos de cima, às vezes entrecortados como se houvesse algum defeito na reprodução. Feeling The Sun Thru The Earth At Night é uma pequena epifania de corais de domingo, conduzidos em marcha por teclados e sons sem muita explicação, como se estivessem indo para algum lugar do qual só ouvimos falar.

Maze Of Woods é rico, cheio de inventividade, com loucura e serenidade em doses certas, feito com a intenção declarada de surrupiar o ouvinte da realidade. Se as condições ideais para isso forem respeitadas, pode funcionar que é uma beleza. Permita-se.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.