Resenhas

Iron and Wine – Ghost On Ghost

Banda chega ao seu quinto disco com ares de que ainda deseja inovar e mudar o seu som. Veja a nossa resenha a respeito de um dos grandes momentos Folk deste ano.

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Ano: 2013
Selo: 4AD, Nonesuch
# Faixas: 12
Estilos: Folk, Jazz
Duração: 44:04
Nota: 4.0
Produção: Brian Deck, Sam Beam

Iron and Wine é o nome de palco utilizado por Sam Beam, norte-americano da Carolina do Sul. Ao longo de sua carreira já bastante longa, o músico sempre procurou incorporar as suas maiores influências musicais ao seu próprio som. Passando do Folk de Nick Drake ao de Neil Young, Sam sempre trouxe um ar introspectivo, calmo e belo em seus quatro discos anteriores. Em Ghost on Ghost vemos uma expansão sonora surpreendente e um disco que brinca com outros ritmos de forma interessante.

A primeira sensação que tive nos primeiros 20 segundos da faixa inicial Caught in the Briars, foi de que algo estranho ecoava no ar. Sons quebrados e improvisados, uma guitarra distorcida alta ao fundo, nada fazia sentido. Será que o Iron and Wine se tornou elétrico e experimental? Não que tal mudança fosse ruim, mas seria no mínimo inusitada, semelhante a quando Bob Dylan trocou o violão pela guitarra. Felizmente, tal trecho é somente um sinalizador de que algo realmente mudou e os minutos posteriores da faixa só trazem alegria ao ouvinte. Sam parece sair um pouco da tristeza e melancolia anteriores, e cria um som contagiante com o acréscimo de muitíssimo bem-vindos instrumentos de sopro. Seu clima é muito mais praierio que campestre e mostra o começo de uma relação de Sam com o Jazz neste disco.

O ritmo é visto ao longo de diversas canções como a excelente Low Light Buddy of Mine. Uma guitarra abafada ao fundo, e um bateria quebrada trazem espaço pra improvisações – pequenos momentos em que o feeling é mais relevante que a técnica propriamente. O solo de saxofone casa perfeitamente com esta definição, assim como outros pequenos detalhes – as teclas tocadas em momentos distintos e os surpreendentes backing vocals. O estilo jazzístico é retomado na melhor-faixa-do-disco, Singers and the Endless Song, um groove espirtual nos moldes do que Matthew E. White nos passou ano passado. Só consigo imaginar uma grande festa sendo feita ao vivo em uma performance desta música.

O lado expansionista, divertido e colorido é retomado em momentos como The Desert Babber e The New Mexico’s No Breeze, ambas de uma beleza ímpar. O acréscimo de instrumentos de sopro nas faixas só traz um lirismo instrumental e uma emoção muito maior, algo semelhante ao que o Los Hermanos sempre nos proporcionou. Aliás, este lado ensolorado mas ainda melancólico agradará bastante os fãs dos barbudos cariocas.

Algo que talvez possa incomodar alguns consiste no fato de Sam brincar com diversos estilos, não seguindo propriamente alguma linha estrutural. Tal fato pode levar alguns ouvintes a se concentrarem no ritmo mais condizente com o seu gosto pessoal, e as faixas de certa forma podem ser consideradas “jogadas” no disco. Temos um momento expansionista, para outro mais intimista para depois um brincadeira Jazz e outra Folk. Vale ressaltar que cada faixa é muito bem executada mas de certa forma falta uma certa consistência a obra como um todo.

Por exemplo, os momentos quase só concentrados na voz Sundown (Back in the Briars) e Joy. São faixas belíssimas, mas que destoam do resto do disco como um todo. No entanto, Joy*, por exemplo, traz um momento inspiradíssimo de Sam, em que ecos de Freddie Mercury, sim o líder da Queen, aparecem. O cuidado com os detalhes, assim como os diferentes timbres alcançados lembram, e muito, um dos melhores vocalistas de todos os tempos.

O clima Folk caractéristico dos antigos álbuns é retomado em momentos como Grass Windows e Baby Center Stage. Ambos seriam bem acompanhados de um bela xícara de café e uma visão da paisagem campestre. O sol em ambas parece surgir aos poucos no horizonte, enquanto a voz de Sam traz aquela emoção característica que dificilmente consegue ser superada.

A única faixa consistente com a obra como um todo é Lover’s Revolution. Nela vemos uma transição entre todas as inspirações recorrentes no disco: o Jazz em uma estrutura quebrada, o lado Folk mais intimista na voz mas que aos poucos vai aumentando o seu ritmo, trazendo uma mistura de êxtase e calma vista nos momentos ensolarados. A música tem o melhor momento instrumental na improvisação conjunta entre saxofone, trombone, teclado e bateria.

Em Ghost on Ghost vemos o Iron and Wine transitando por diversos estilos, todos muitíssimo bem executados. As faixas são realmente relevantes e boas, mas o álbum de forma integral carece de uma unidade, ou simplesmente uma linha comum entre todas as faixas. Nada que faça você dar menos atenção às belíssimas músicas contidas, mas que nos fazem diminuir um pouco a nota deste disco que é sim excelente. Agora, só queremos que a banda dê uma passada por terras brasileiras e nos mostre como é este som ao vivo.

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ARTISTA: Iron & Wine
MARCADORES: Folk, Jazz, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.