Resenhas

James Blackshaw – Fantomas: Le Faux Magistrat

Violoninta inglês se reinventa em trilha sonora para filme centenário

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Ano: 2014
Selo: Tompkins Square
# Faixas: 13
Estilos: Soundtrack, Indie Folk, Instrumental
Duração: 74:26min
Nota: 3.5
Produção: Yann Tiersen e James Blackshaw

Leitores e leitoras, vocês conhecem Fantômas? Não a banda esquisitona do não menos estranho Mike Patton, mas o personagem dos escritores franceses Pierre Souvestre e Marcel Allain? Provavelmente não, né? Pois bem, entre 1911 e 1915, estes dois sujeitos escreveram mais de trezentas páginas sobre ele e publicaram em 30 idiomas. A partir destas histórias, contos policiais ambientados nos subúrbios de Paris, foram feitos cinco filmes inspirados na lúgubre e sinistra figura central, um ladrão misterioso e especialmente hábil com disfarces. Como estamos falando de início do século 20, estamos também abordando o fato de que tais filmes eram mudos, todos com a direção de Louis Feuillade.

Como celebração do centenário dos filmes, alguns artistas foram convidados para elaborar uma trilha sonora para as histórias, cabendo a James Blackshaw a missão de prover temas e climas para o quinto e último episódio, Le Faux Magistrat. A escolha dele é interessante, pois trata-se de um hábil violonista, com obra calcada nos caminhos do Folk britânico, na mesma escola de um Bert Janch ou um Davy Graham, ou seja, lúgubre, existencial e misterioso, mas de uma forma distinta do que poderíamos imaginar como adequada à sonorização das sombrias andanças de Fantômas na noite parisiense. A trilha, no entanto, mostra-se muito adequada, totalmente cinematográfica, tensa, sinistra e imprevisível. Sai o minimalismo acústico e entra uma abordagem grandiosa, orquestral sem ser erudita, com presença de instrumentos como bateria (tocada por Simon Scott, do Slowdive), guitarras, pianos, saxofone, baixo e tudo mais. São quase 75 minutos de música que vão passar sem que você perceba, com as faixas batizadas apenas como Fantômas: Le Faux Magistrat, indo da Pt.1 até a Pt.13, todas enfatizando e favorecendo as habilidades de James como compositor.

A Parte 1 é pianística, sombria e climática, com um belo cello fazendo par em meio a bateria imprevisível. Ela prepara o terreno para a Parte 2, que chega com mais piano, fraseados insinuantes e um clima de tensão que vai aumentando em meio a aparições de saxofones no cenário. A parte seguinte tem o amálgama de piano, violão e guitarra, num processo de simbiose natural e inevitável. A Parte 4 tem proeminência de uma linha sinuosa de baixo, que pavimenta o caminho para o violão de Blackshaw percorrer distâncias na noite. Surpresas surgem na flauta que aparece subitamente na Parte 7, nos efeitos de guitarra da Parte 11 e sutilezas também tem lugar, seja nos arranjos de cordas da Parte 12 ou no falso final da Parte 13, sugerindo sequência, como era o traço comum dos episódios do Fantômas.

Um trabalho diferente, orquestral e orgânico ao mesmo tempo, que pode servir de ponto de partida para um mundo novo.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.