Resenhas

James Blake – Friends That Break Your Heart

A produção do celebrado artista londrino continua afiada, mas no quinto disco ele também nos entrega uma obra de canções – ainda que a seu modo

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Ano: 2021
Selo: Republic Recods/Polydor/UMG
# Faixas: 13
Estilos: Indie, Pop Eletrônico, R&B
Duração: 46'
Produção: Dominic Maker, Frank Dukes, Jameela Jamil, James Blake, Joji, Josh Stadlen, KHUSHI, Metro Boomin, Rick Nowels e Take a Daytrip A.

Para falar do quinto álbum de James Blake, é importante perceber o caminho que sua carreira e discografia fizeram até aqui. Há pouco mais de uma década na ativa, o músico londrino vive hoje em Los Angeles, a capital mundial da indústria fonográfica, e acumula créditos de produção em trabalhos com nomes gigantescos dentro de seus nichos, como Kendrick Lamar, Frank Ocean, Bon Iver e até mesmo Beyoncé (que desafia o conceito de “nome gigantesco” como ninguém). Tudo isso tendo começado como um exímio cantor e compositor, embora seu lado de produtor tenha sempre chamado (ainda) mais atenção. Guarde essa informação.

Friends That Break Your Heart faz par com seu anterior, Assume Form (2019), no que pode ser chamado de “fase californiana”, ou “angelina”, de sua discografia, marcada não só pela mudança de cenário (foi-se a Londres nebulosa, chegou a LA ensolarada dos filmes), mas pela parceria na vida e no trabalho com a atriz e ativista Jameela Jamil – que colabora como compositora e produtora nesses dois discos. Nos últimos anos, suas músicas ficaram mais leves, menos melancólicas e mais abertas a convidados, por exemplo, com espaço para lançamentos dançantes e letras românticas que, ao contrário das composições nos primeiros álbuns, terminam com um sorriso.

Não entenda, porém, FTBYH como uma obra de audição despreocupada. Ela pode não ter os recortes que fazem cócegas nos ouvidos de “Unluck” ou o silêncio reverberante de sua versão de “Limit to Your Love” (de Feist) (ambas do disco de estreia, James Blake, de 2011), nem a urgência emocional de todo seu The Colour in Anything (2016). Ainda assim, é um álbum no qual James, mesmo em seus melhores dias em nível pessoal e profissional, ainda investiga aspectos mais doloridos de sua sensibilidade através de sua maestria como produtor.

Voltemos então a esse assunto: James Blake é um produtor no nível de poucos, com um ouvido muito atento a como os timbres podem ser utilizados. Foi isso o que chamou a atenção de Kendrick e Beyoncé, foi o que o colocou no mapa para muito além do seu vocal, composições e letras. Impressiona, portanto, notar como ele se recusa a fazer algo nos moldes de um “disco de produtor” como conhecemos e, mais uma vez, se entrega à autoralidade, à vontade de se expressar artisticamente, para nos entregar uma obra de canções – ainda que a seu modo.

Por exemplo: “Say What You Will”, o single principal do disco, traz um dos momentos mais marcantes de sua carreira como vocalista, com uma nota alongada em falsete no clímax da música que nos relembra sua potência como cantor; “Funeral” (que conta com slowthai na versão deluxe do álbum) traz os versos “And I know this feeling too well (Too well)/ Of being alive at your own funeral/ Goin’, ‘Don’t give up on me’”, exemplificando seu poder de síntese poética ao narrar uma sensação tida como universal em uma metáfora muito específica; e “I’m so Blessed You’re Mine” é sua versão de uma canção de amor com batidas pesadas e uma voz muito processada que entoa o verso que nomeia a faixa repetidas vezes. São muitos os momentos do disco que trazem Blake subvertendo com naturalidade algumas expectativas de formato, se permitindo ser Pop (com várias ressalvas) e trazendo sua personalidade criativamente inquieta de sempre para este novo momento da carreira.

O que se percebe, ao final, é que seu talento como produtor permanece afiadíssimo, mas que isso nem sempre se traduz em uma obra que deve interessar o público com o qual ele hoje tem a capacidade de se comunicar, visto seu prestígio e os artistas com quem se conecta. Não que isso devesse ser seu objetivo, sequer ambição, mas sua produção acaba tendo uma personalidade muito própria para que sua música dialogue imediatamente com os fãs de SZA (que canta aqui em “Coming Back”), Rosalía ou Travis Scott (ambos presentes no disco anterior).

Por outro lado, no entanto, James Blake está amparado por seu forte poder autoral e constrói uma obra de alta qualidade que se comunica com as de uma fase anterior naquilo que mais importa: a identidade de seu criador. Apostando cada vez menos em hits e – ao mesmo tempo – em experimentalismos, o músico chega a seu quinto disco fazendo aquilo que acredita e quer, sendo ele mesmo e prestando contas apenas à sua arte. Isso sim é ser bem-sucedido, até mesmo em Los Angeles.

(Friends That Break Your Heart em uma faixa: “Life Is Not the Same”)

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ARTISTA: James Blake

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.