James Blake – Overgrown

Por que tanta beleza e melancolia? Não sabemos, mas novamente o artista britânico consegue realizar uma obra sincera e intimista, sem antes mostrar suas novas facetas

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Ano: 2013
Selo: Polydor, Republic Records
# Faixas: 10
Estilos: Dubstep, Eletrônica
Duração: 39:22
Nota: 4.5
Produção: James Blake, Brian Eno
SoundCloud: /tracks/78278216

James Blake é daqueles artistas que a definição carece de maiores informações do que a própria objetividade. Assim como é complicado explicar alguns sentimentos ou afeto por outros, aqueles claros momentos em que as palavras faltam com a mesma naturalidade que admiração surge, é difícil dizer por que o som do cantor consegue capturar a beleza na música como poucos. Overgrown é simplesmente uma das obras mais tocantes e emotivas que eu tive a chance de resenhar nos últimos tempos.

Seu som minimalista nos faz até esquecer que o seu rótulo ou estilo, Dubstep, também é feito de outra maneira, totalmente paradoxal da produzida por James. Mas, tudo bem, não podemos nos esquecer que um ritmo é ampliado de acordo com o grau de experimentação e ousadia de seus artistas, logo, tanto Blake e Skrillex são geniais sob um mesmo teto, apesar de realizarem sons tão opostos. No entanto, em seu segundo disco, o britânico aparece de forma mais expansiva em alguns momentos, brincando com a música eletrônica como jamais havia feito sob a batuta do mítico produtor Brian Eno.

Um ser de outro planeta, ou um parente de outra geração, que tenha a oportunidade de escutar Blake ficará com certeza de boca aberta ao descobrir sua idade: 24 anos. Prodígio como outros profissionais de áreas diversas (pensou em Messi ou Sebastian Vettel por acaso?), James mostra que o tempo de vida
nada mais é que um elemento supérfluo quando se tem talento. Aqueles que o viram no Sónar ano passado podem comprovar tudo o que digo e, talvez, com a boca ainda mais cheia de adjetivos e palavras bonitas para descrever som, show, artista que merecem todo o nosso respeito e admiração.

Overgrown pode ser cruel com as pessoas que não estão nos seus melhores dias, sendo de partir o coração em alguns momentos, tocando em pontos escondidos e te fazendo lembrar nostalgicamente de tudo o que poderia ter sido e não foi. De tudo o que pode ser e será. Abre a sua percepção relativa à beleza do mundo. O que é a faixa-título, que logo de cara abre o disco e mostra Blake se abrindo e dizendo com sinceridade “I don’t wanna be a star /But a stone on the shore”. A canção cresce cuidadosamente com instrumentos sendo colocados a cada loop e em todas as repetições de verso e refrão parecemos nos surpreender ainda mais com a sua grandiosidade.

Tais momentos são repetidos quando como uma faca pontiaguada, a voz de James corta estruturas, aumenta o seu volume e se mistura a bases eletrônicas minimalistas. I am Sold se encaixa neste perfil e te faz reproduzir mentalmente os versos “And we late, nocturnal speculate what we feel”. De forma análoga, o ouvinte somente especula o que música pode te fazer sentir e realizar acerca de tudo. O ponto mais alto consiste na guitarra abafada, meio Reggae, em uma faixa que brinca um pouco com Dub puro.

Dlm traz um vertente um pouco mais Gospel/R&B, na qual o cantor utiliza-se somente do piano para criar uma canção intimista em que pecados parecem ser confessados enquanto os dedos percorrem de forma erudita o instrumento. Our Love Comes Back também nos faz pensar o que aflige tanto este jovem artista, por que sua vida parece ser tão melancólica? É nesta faixa que, aliás, os aspectos que o pai do Dubstep, Burial, criou, são retomados por Blake. Batida tão leve quanto uma chuva fina, enquanto o baixo é marcado precisamente a cada tempo. A voz, maior valência do cantor, é repetida e alterada através de efeitos, deixando tudo ainda mais tocante.

No entanto, não pense que Overgrown é somente uma evolução natural de uma estrutura consolidada em seu primeiro disco e posteriores EPs. O cantor aqui evolui sob diversos aspectos, criando ainda o seus sons minimalistas mais cuidadosamente tentando se mostrar um pouco mais expansivo em termos de volume sonoro e ritmo. A faixa Take a Fall for Me é um Hip Hop instrospectivo com a participação do rapper RZA, um dos membros fundadores do Wu-Tang Clan. As rimas, a cada trecho, se tornam mais intensas, como a bela declaração “Don’t marry him, don’t carry him to paradise”, e sobem à medida que Blake vai jogando batidas na Drum Manchine.

Digital Lion surpreende em seu experimentalismo eletrônico, vozes são sobrepostas e James parece ter vários seres iguais a si mesmo nesta faixa com um pouco mais os pés nas pistas de dança – algo que se consolida em Voyeur, uma canção em que Blake se “sampleia” e cria um filhote perfeito do que produtor Four Tet costuma fazer em suas obras: diversas texturas sonoras seguidas por uma percussão concentrada em pequenos elementos.

Os melhores momentos são guardados para as canções Retrograde e To the Last. A primeira tem um trabalho vocálico louvável, emocionante, sinceramente indescritível até ser escutado pela primeira vez. É daquelas paixões que te acertam sem você simplesmente dar a chance de se proteger e perceber o que está realmente acontecendo. A segunda traz um órgão sendo feito através de um sintetizador, e realça este lado mais Gospel/ R&B visto no disco. A faixa parece entrar em comunhão direta com o ouvinte, criando um momento sonoro que proporciona calma e satisfação.

Overgrown é uma daqueles momentos que te fazem refletir sobre si mesmo. O que leva jovens a serem tão prodígios? Será que é somente uma simples equação em que o talento predomina? Talvez, Blake tenha descoberto o que ama antes da maioria de nós, se dedicado e hoje, aos 24 anos, seja um dos maiores cantores de música contemporânea. Independente de devaneios, tal obra só vêm para mais uma vez partir o nosso coração, nos emocionar e consolidar um outro lado do Dubstep, paradoxalmente calmo, intimista e sentimental.

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BOM PARA QUEM OUVE: Four Tet, Burial, Bon Iver
ARTISTA: James Blake
MARCADORES: Dubstep, Eletrônica, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.