Resenhas

James Vincent McMorrow – True Care

Novo álbum do cantor e compositor irlandês confirma busca pela Soul Music

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Ano: 2017
Selo: Caroline
# Faixas: 15
Estilos: R&B Indie, Eletrônico, Pop Alternativo
Duração: 47:58
Nota: 4.0
Produção: James Vincent McMorrow

Há menos de um ano, mais precisamente, em 6 de setembro de 2016, eu escrevia sobre We Move, o disco anterior de James Vincent McMorrow. Mudo bem pouco do que disse sobre este álbum em relação ao que vou dizer agora sobre True Care, seu sucessor. O grande barato na música do cantor e compositor irlandês é a possibilidade de documentarmos a jornada que sua música empreende, tendo como ponto de origem o Folk Alternativo do início dos anos 00, em direção ao R&B contemporâneo do século 21. É ótimo poder ver o quanto muda na música de James de um disco para outro e o quanto ele vai levar para atingir seu destino e, por fim, tornar-se um legítimo cantor e compositor de “música negra”.

É provável que James discorde dessa minha opinião. O que importa pra ele, independente de formatos estéticos, é a verdade e o que a música pode fazer, tanto pelo pelo artista, como pelo público. Sua preocupação com isso reside na qualidade da gravação, feita por ele, sem correções no estúdio, com o mínimo possível de retoques. Também reside no desejo de ser entendido, como relata o “manifesto” que publicou em seu site sobre o risco de lançar um novo álbum num espaço tão curto em relação ao anterior. Sabemos que isso acontece sem que haja algum prejuízo para o artista ou sua obra. Fãs e admiradores até anseiam por mais e mais material lançado em menos tempo. Mas JMV se aflige com um lançamento oito meses após outro, especialmente porque ele deseja que seus álbuns traduzam apenas a verdade (sua) e que ofereçam ao público o retrato mais fiel possível de suas emoções e estado de espírito.

É louvável esta preocupação, sobretudo se pensarmos numa indústria do entretenimento que acena com possibilidades “iguais” para artistas com o potencial do próprio JMV e de, vejamos, Beyoncé. Sabemos bem que os públicos de ambos não se confundem e que um deles é bastante maior que o outro, algo que, implicitamente James questiona, compromete essa tal transmissão da verdade do artista. Se fosse um sujeito falastrão e fanfarrão, certamente essa angústia nem seria considerada na resenha, mas, como JMV é um cara recluso e emocional, suas aflições pesam. E muito. Felizmente ele conseguiu compor e gravar um baita disco bem feito, independente desta necessidade de transmitir verdades. Aqui estão a sua marca artística principal e a intensidade que o ouvinte espera de uma proposta como essa. E a emoção, meus caros e caras, corre solta.

Mas, o que pega o álbum pelo pé? Duas coisas. A) ele tem canções demais e aquele formato de vinhetas, “outros”, “intros”, “interludes” que totalizam 15 faixas e que, pessoalmente falando, são um saco. B) ele tem boas canções de menos. Dentre o total, cinco faixas entram para a prateleira “ótimas/muito boas”. O destaque absoluto vai para o single Thank You, que consegue mesclar teclados cristalinos, vocais de outro mundo, ritmo comedido e uns fraseados que trazem um DNA de gravações setentistas de Smokey Robinson, especialmente no clima de seu classicão do posto, Quiet Storm. Outra belezura mineral/emocional é Pink Salt Lake, com um piano que parece tocado de uma outra esfera da existência, enquanto Bend Your Knees traz câmera lenta e crescentes em profusão. As outras canções assombrosas são Change Of Heart, outra que poderia estar cronologicamente alinhada com algumas gravações classudas e diáfanas dos anos 1980 e a melhor faixa do álbum, o épico de bolso Glad It’s Raining, que pode encapsular o sentimento dos reclusos, sensíveis e tímidos em seu título, mas que ainda comporta uma levada dolente com pianos e vocais de mãos dadas no parque.

James Vincent McMorrow nem precisava de manifesto para que percebêssemos o cuidado e a importância que sua música tem para ele e o quanto deseja que o público perceba tudo o que quer dizer/transmitir. Mesmo assim, além da verdade, seu novo álbum tem algumas das melhores canções que ele já fez.

(True Care em uma canção: Glad It’s Raining)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.