Resenhas

Jamie xx – In Colour

Primeiro disco solo do produtor explora de forma magistral a relação música-compositor

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Ano: 2015
Selo: XL/Young Turks
# Faixas: 11
Estilos: Eletrônica, Club, Chillwave
Duração: 42:40
Nota: 5.0
Produção: Jamie xx e Kieran Hebden
Itunes: https://geo.itunes.apple.com/us/album/in-colour/id978362006?uo=6

A música Eletrônica é um dos gêneros mais curiosos. No decorrer dos anos, a tecnologia forneceu a ela condições necessárias para que evoluísse e se transformasse de maneiras cada vez mais experimentais e com menos limitações. Um dos adventos mais interessantes foi a cultura de samples: por meio da edição e inserção de determinados trechos de outras músicas, era possível criar novos significados para canções já conhecidas e, ainda melhor, formar uma identidade autêntica a partir de colagem de outras obras.

É um elemento da música eletrônica que merece um cuidado especial, afinal, embora as possibilidades sejam infinitas, sempre podemos cair em clichês de remixes e mashups que não chegam a propor algo realmente novo, apenas releituras que não se distanciam dos sentidos criados pelas músicas originais. Mas é claro que existem casos em que essa dinâmica é melhor estudada, e podemos afirmar hoje com certeza que encontramos uma de suas melhores aplicações em In Colour, primeiro lançamento solo de Jamie xx.

Produtor do trio inglês The xx, Jamie começou a liberar prévias desse experimento solo há quase dois anos. Com excelentes singles como Girl e Sleep Sound, uma curiosidade começava a pairar sobre os trabalhos do inglês fora do trio que lhe rendeu maior visibilidade. Jamie já demonstrava sinais de uma obra bem produzida, porém o que chamava a atenção era o processo criativo do músico (principalmente observado na entrevista concedida ao canal The Creators Projects). Timidamente, ele fala de como todo o processo criativo para ele era algo bastante irracional e como ele nunca usa samples alheios de uma forma direta, sempre havendo uma intervenção de edição sua. Tais elementos são fundamentais para entender a profundidade de In Colour e do porquê desse trabalho não se tratar de apenas mais um disco de Eletrônica sampleada.

Com vários subgêneros, Jamie tenta mostrar ao ouvinte o quão diversas suas referências são, porém, mais do que isso, ele mostra como elas se passam em sua cabeça. O que ouvimos não é uma simples edição de samples, mas uma representação da percepção de Jamie sobre ela. Por exemplo, a faixa Seesaw conta com uma batida Club que sustenta uma eteriedade ímpar, com vocais de Romy Madley (também The xx) e uma série de pads envoltos em reverbs. Nenhum desses elementos parece se sobrepor e, portanto, Jamie nos mostra que as coisas não estão tão dividas e segmentadas em gêneros em sua cabeça. Tudo parece ser uma mistura consistente, harmônica e, principalmente, clara. Além do mais, pelo fato de se tratar de um disco solo, fica muito mais clara a evidência da instrospecção e do fator pessoal do disco.

Jamie também nos mostra um pouco mais sobre seus amigos, propondo parcerias incríveis. Romy Madley também empresta sua voz na faixa Loud Places, uma espécie de dueto entre The xx e Gospel dentro de uma discoteca dos anos 80 (um lugar amplamente frequentado por Jamie em sua adolescência). Oliver Sim, o terceiro The xx, ilustra um momento mais escuro do disco, remetendo a sintetizadores dos anos 90 com guitarras reverberadas e tímidas. Young Thug and Popcaan ajudam Jamie na composição I Know There’s Gonna Be (Good Times) a relembrar um Pop bem brega (no melhor estilo Kevin Lyttle), porém retirando os excessos comerciais e trabalhando muito bem os arranjos e as batidas. Essas parcerias acabam nos remetendo a elementos bastante presentes da vida e obra de Jamie (clubes dos anos 80, o Pop, uso de MPCs, sua participação em The xx), fazendo com que a obra ganha um sentindo mais pessoal ainda.

Embora a obra tenha um aspecto tanto pessoal quanto histórico-musical, é preciso evidenciar o fato sensorial do disco, que nos é apresentado com força e maestria nas faixas instrumentais. The Rest Is Noise nos conduz por diversos sentimentos, flertando em certas horas, com tensões e experimentalismos, e em outras, com um padrão concreto de música Eletrônica. Gosh brinca bastante com frequências baixas, explodindo nossos ouvidos com timbre graves bem trabalhados e que nem por isso são barulhentos (como boa parte das faixas de Dubstep). Obvs nos conduz por timbres jamaicanos de Steel Drums da mesma forma que cria hipnoses oriundas de gêneros como Post-Rock e Chillwave. Todas essas experiências e viagens sensoriais dão ao disco uma profundidade muito bem trabalhada, criando novas formas de explorar a relação da música como principal difusor e comunicador dos sentimentos e experiências do músico, no caso Jamie xx.

Uma obra que explora cada particularidade, não só da música Eletrônica, mas da música em geral. Criando caminhos para desvendar a mente do compositor, ilustrando com memórias sonoras, provocando sensações, In Colour é um destaque bastante luminoso na música moderna. É bem provável que esse disco figure nas listas de fim de ano em uma posição bastante privilegiada (quem sabe o primeiro lugar).

Um perfeito exemplo da infinidade do universo instrospectivo do compositor.

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BOM PARA QUEM OUVE: Shlohmo, Daughter, The xx
ARTISTA: Jamie xx

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.