Resenhas

Jane Weaver – Flock

Em seu 11º disco, artista britânica percorre diferentes períodos do Pop, adicionando seu típico experimentalismo em cada passeio

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Ano: 2021
Selo: Fire Records
# Faixas: 10
Estilos: Pop, Experimental
Duração: 44'
Produção: Jane Weaver

Quando um artista anuncia um álbum, é comum que uma expectativa se forme entre o público. Expectativas que são mais como adivinhações – quase como um bolão de referências estéticas. Este tipo de dinâmica acontece com quase todo artista, mas se há alguém que subverte este jogo de expectativas, este alguém é Jane Weaver. A cantora, compositora e produtora inglesa construiu ao longo de sua carreira um status permeado pela imprevisibilidade aliada ao experimentalismo sonoro. Quem é entusiasta de seu trabalho, já entende isso há muito tempo, e tentar prever um novo passo em sua carreira é algo completamente sem sentido, pois Jane sempre arranja um jeito de nos surpreender. Folk, Psicodelia, Rock, Eletrônica, ambientações acústicas são alguns de seus alvos.

Com uma marca impressionante de 10 discos até então, a artista inglesa construiu um legado grandioso e, a cada passo que dá, sua bagagem fica mais extensa, permitindo que novas referências entre em cena, porém nunca abandonando uma identidade autêntica e particular. Apesar de nunca sabermos os próximos passos de Jane, um anúncio de novo disco é sempre intrigante e, particularmente em seu novo trabalho, as referências mencionadas põem nossa cabeça para funcionar a todo vapor. Afinal, o que esperar de um trabalho que mistura, segundo o texto explicativo no Bandcamp, Canções de amor não-correspondido, Punk australiano e música de ginástica russa dos anos 1980?

Em entrevista para o site Louder Than War, Jane descreve Flock, seu 11º primeiro disco, como um compilado de canções Pop que sempre quis fazer. De certa forma, o universo Pop sempre esteve presente em sua carreira – não apenas durante seus experimentos em discos passados, mas também nos entornos comerciais. A banda Coldplay usou como sample sua faixa “Silver Cord”, assim como a série Killing Eve selecionou uma de suas canções para a respectiva trilha sonora. De qualquer forma, a relação de Jane com a música Pop vai longe, porém, não se engane: o Pop de Jane Weaver é completamente diferente do que supomos em nossos lugares comuns. O Pop de Jane é abrangente e qualquer coisa menos óbvio. Seu experimentalismo permanece firme e, durante o disco, somos surpreendidos a cada faixa por influências extremamente distintas e que, segundo a artista, nunca deveriam ter sido consideradas datadas. Flock é mais do que uma máquina do tempo, é uma escavadeira em direção às camadas mais obscuras do Pop, procurando e investigando linguagens que lhe sirvam como instrumento eficaz para se comunicar. Comunicação esta que considera o contexto da pandemia e, por isso, parece trazer ainda mais imprevisibilidade às sonoridades de Jane. Ouvir este disco é como estar à deriva do acaso, quando, na verdade, estamos à mercê das intenções da artista.

Começando aos poucos, “Heartlow” abre o disco crescendo pontualmente até atingir um ápice envolto de Folk e psicodelia dos anos 60, quase como um Sgt. Peppers em miniatura. “Stages of Phases” migra para a década de 70/80, como um interlúdio progressivo repleto de sintetizadores e logo depois explode em uma batida constante que remete a “Elephant”, de Tame Impala. “Modern Reputation”, por sua vez, se apoia nos hipnóticos sintetizadores da década 1990, quase como se fosse um Aphex Twin mais melódico e confessional. “Sunset Dreams” procura aliviar o ouvinte do experimentalismo, em batidas mansas e com um apelo Pop inegável – mas que em alguns momentos deixa escapar uma fresta de manipulação sonora exagerada: um experimentalismo comedido. Ao invés de acalmar os ânimos para o fim, “Solarised” levanta o espírito do ouvinte a partir de uma mistura de elementos de música eletrônica dos anos 2000, sem abrir mão da lisergia característica de outros momentos da sua discografia.

Flock é um disco que apenas confirma as ambições de Jane Weaver. Temos aqui um Pop que chama a atenção pelo seu experimentalismo, mas também pela forma como encontra em cada década uma particularidade para expressar suas mensagens. O que poderia parecer falta de coesão, revela-se justamente a essência da artista: um trabalho cuja singularidade se encontra na constante mutação.

(Flock em uma faixa: “Solarised”)

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ARTISTA: Jane Weaver

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.