Resenhas

Japanese Breakfast – Jubilee

Terceiro disco de Michelle Zauner expande perspectivas – sonoras e líricas – do passado com arranjos majestosos e atmosfera densa

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Ano: 2021
Selo: Dead Oceans
# Faixas: 10
Estilos: Indie Pop, Dream Pop, Bedroom Pop
Duração: 37'
Produção: Michelle Zauner, Craig Hendrix, Jack Tatum, Ryan Galloway e Alex G

Quanto tempo dura o luto? Lidar com a morte de uma pessoa próxima é um desafio que intriga os psicólogos até hoje. Há quem coloque que é preciso passar pelas cinco fases – negação, raiva, barganha, depressão e aceitação – até que se encerre o processo. Outros consideram que só se supera uma perda quando há um objeto novo para substituí-lo. Há também aqueles que preferem ir para além da noção de “superar” o luto, colocando que sempre haverá um lugar vazio dentro relativo a esta perda. Seja como for, o tempo do luto é algo muito subjetivo, sendo a forma como cada um lida um reflexo de diferentes personalidade e significados atribuídos.

Para Michelle Zauner, uma das formas encontradas para lidar com a perda de sua mãe  foi expressar todo o reboliço emocional a partir de canções. Com este conjunto de canções, Michelle formou um dos nomes mais relevantes dentro da cena Indie da década de 2010: o Japanese Breakfast. Entretanto, o que era para ser um processo de ressignificação da morte, parece ter se alongado um pouco mais. O luto pode não ter um tempo definido, mas para Michelle Zauner, isto já havia ultrapassado os limites.

Por muito tempo, Japanese Breakfast foi conhecido como este projeto que falava sobre luto e perda. A narrativa da Michelle foi exaustivamente republicada várias vezes em diversos sites, fazendo-a entrar em contato com a morte de sua mãe mais vezes do que gostaria. Em entrevista para a Vox, a compositora menciona que foi definitivamente um desafio processar este trauma constantemente nos últimos cinco anos. De certa forma, seus dois primeiros discos, Psychobomb (2016) e Soft Sounds From Another Planet (2017), foram marcados por esta temática, aliados a uma sonoridade Bedroom Pop/Indie que ressaltava ainda mais o aspecto confessional de sua obra. Agora, seis anos depois do ocorrido, Michelle começa a vislumbrar outros caminhos e possibilidades que sua sonoridade pode percorrer sem sacrificar sua maior característica: a sinceridade. Esta é a história que Jubilee nos conta.

Em seu terceiro disco, Michelle está mais preocupada com a urgência do presente do que relembrar eventos do passado. Não que eles não sejam importantes, mas certamente há uma mudança do foco narrativo, permitindo que a sonoridade consolidada no Indie explore vertentes mais dinâmicas e criativas. É como se, ao realizar este movimento de focar em si mesma, no agora, ela descobrisse uma infinidade de pequenas narrativas e sentimentos complexos, e apenas uma sonoridade igualmente rica poderia dar conta de repassar isso ao ouvinte. Aquele Bedroom Pop mais tímido cede espaço para arranjos majestosos com metais quentes. O formato acústico convida sintetizadores nostálgicos a criar atmosferas densas e caprichadas em flertes com a Ambient Music. As letras honestas de Michelle ainda continuam intactas, mas a força desta nova sonoridade permite que ela alcance voos mais altos – ou mergulhos mais profundos dentro de si.

Os sintetizadores suaves e acolhedores de “Paprika” dão o tom inicial do disco, convidando o ouvinte a entrar no mundo de Michelle para depois se maravilhar com um arranjo típico de um desfile de banda – como se estivesse dando boas-vindas a este mundo introspectivo. “Kokomo, IN” se aproxima da estética dos discos passados, funcionando como um respeito à tradição musical estabelecida até aqui e entoando novos elementos como arranjos de cordas. “Posing In Bondage” tira as estruturas rígidas de bateria para deixar o ouvinte à deriva das intenções de Michelle, repleto de ecos e vocais suaves. “Savage Good Boy” é um daqueles hinos Indie que cultua a juventude e a sensação de se viver para sempre, tudo isso enrolado em um refrão extremamente Pop e pegajoso. Mais branda, “Tactics” encarna um peso mais realista das coisas, permeado por emoções melancólicas e reflexivas a partir de um andamento lento e arranjos brilhantes. Para encerrar o disco, “Posing For Cars” ilumina os corações com solos quentes de guitarra e uma sensação de expansão, como se Michelle se descobrisse, enfim, sem limites.

Em Jubilee, Michelle Zauner sai da temática do luto, não porque não tem mais o que falar sobre a morte de sua mãe, mas porque sente que o tempo que precisava já passou. Agora, ela vislumbra novas possibilidades, seja no tema das letras ou na composição desta nova sonoridade de Japanese Breakfast. Com este disco, Michelle acaba por nos responder àquela primeira pergunta que nós fizemos. Quanto tempo dura o luto? O tempo necessário.

(Jubilee em uma faixa: “Posing For Cars”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.