Resenhas

Jaws – Simplicity

Trio inglês acrescenta doses de peso e Pop a belas melodias de guitarra

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Ano: 2016
Selo: JAWS
# Faixas: 11
Estilos: Dream Pop, Pop Alternativo, Rock Alternativo
Duração: 42:53
Nota: 3.5
Produção: Gethin Pearson

Jaws é um trio de Birminghan, cidade inglesa da qual saíram, entre outros, Duran Duran e Black Sabbath. Este bom Simplicity é seu segundo disco, no qual esta galera, espertamente, consegue algo que eu ainda não havia visto por aí: uma versão ainda mais Pop e guitarreira do Dream Pop e do Shoegazer, aqueles gêneros que têm melodias singelas, às vezes mais, às vezes menos peso, canções lentas, climáticas, feitas sobre contemplação e melancolia. Os rapazes conseguem pegar grande parte desta ambiência tristonha e harmônica, inserem tudo isso dentro de canções com inegável apelo roqueiro, no sentido baixo-bateria-guitarra do termo, se valendo de arranjos musculosos e com certo peso para propor algo novo. A mistura funciona que é uma beleza e desta mistura de visões musicais saem alguns bons exemplos do que Jaws deseja fazer como banda deste nosso tempo.

Não há reinvenção por aqui, apenas infusão de elementos ostensivamente Pop em todos os cantos. Não há uma única canção sem refrão grudento, talvez feito para cantorias em estádios e arenas por aí. Todos os vocais são duplicados, com presença de backings, conferindo uma aura atmosférica para as faixas. Além disso, boas guitarras, que tanto brincam nas partes harmônicas como conferem peso na hora certa, pontuam as melodias, dando uma sensação interessante de novidade, mas que sabemos, não existe. É uma boa e eficiente abordagem de informações pertencentes ao ideário indie desde o início dos anos 1990, mas que povoam saltitantes as criações que o trio oferece aos ouvintes por aqui. Também há boas influências por todos os cantos, seja na parte cinzenta/contemplativa, como nos quesitos popescos. É um disco eficiente e divertido, acima de tudo.

Just A Boy é o primeiro single e abre o disco com guitarras que poderiam estar em Lullaby, gravação de 1989 de The Cure. Só que este dado é apenas um pedaço da informação oferecida por Jaws. Ela logo se vê acompanhada por bateria e baixo pulsantes, que conduzem a faixa para um caminho mais iluminado e potente. What We Haven’t Got Yet também pega guitarras idealizadas por Robert Smith, mas de outra fase, no caso, do álbum Wish, lançado em 1992, em meio a um ressurgimento colorido e animado de sua banda. Aqui, além de haver uma boa recriação desta ambiência, há a inserção de vários “ôôôô ôôôô”, seguindo a lógica de refrão para grandes multidões. A mistura, que também inclui ótimo trabalho de bateria e a já mencionada habilidade com confecção de melodias grudentas, credencia facilmente a canção para o debate dentro deste espinhoso caminho que é o Rock para grandes multidões com capacidade de manter sua qualidade mínima.

Cast é mais um exemplo desta boa habilidade. Com pinta de canção de Real Estate, Yuck e Dinosaur Jr ao mesmo tempo, ela brinca alegremente na areia daquela praia deserta e cinzenta que sempre vemos nestas melodias alegres e enguitarradas, pontuadas por vocais que parecem um vento frio no rosto.On The Sunshine já pega emprestado algo do U2 da virada dos anos 1980/90 mas devidamente mesclado a essa massa sonora essencial e fluida da qual estamos falando. Work It Out também vai por este caminho, apesar de investir mais nas texturas e nos climas. Após uma canção mais fraca, In The Morning, o disco recupera seu bom nível, novamente com acenos aos anos 1980 em A Brief Escape From Life, preparando o encerramento com The Invisible Sleep, lenta, cinematográfica, mais americana que inglesa, parecendo feita em laboratório para fãs de Smashing Pumpkins em seus momentos mais inspirado, quando alternava passagens tranquilas e melódicas com trechos mais pesados.

Este disco de Jaws, caso seja devidamente divulgado, frequentará playlists de órfãos do Rock Alternativo noventista e dos revivalistas deste estilo. Tem este gostinho de novidade, embutido na nova visão sobre os velhos sons, algo que, sim, faz diferença. Recomendo sem contraindicações.

(Simplicity em uma música: Cast)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.