Resenhas

Jazmine Sullivan – Heaux Tales

Compositora de hits do R&B compila discursos e experiências de diferentes mulheres em registro tocante e profundo

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Ano: 2021
Selo: RCA Records
# Faixas: 14
Estilos: R&B, Neo-Soul
Duração: 32'
Produção: Key Wane, DZL, Cardiak, Kevin "Wu10" Wooten, Jairus "MO" Mozee, Dev Hynes, Dave "Pop" Watson, Dilemma, Joe Logic, Gee, Uforo "Bongo ByTheWay" Ebong

No atual mundo Pop, o número de pessoas envolvidas na produção e composição de uma música aumenta cada vez mais. Os créditos dos grandes hits radiofônicos somam linhas e mais linhas e, nesse emaranhado de produtores, instrumentistas e compositores, por vezes, cometemos a injustiça de negligenciar algum nome sob a sombra do artista principal. Jazmine Sullivan poderia ser facilmente mais um nome soterrado entre a pilha de pessoas responsáveis por dar vida a grandes canções do R&B moderno. Mas seu talento não permitiu que seu nome fosse apenas mais uma linha nos créditos de uma faixa.

Pelo contrário, sua presença dentro de uma composição demonstrava um atrativo por si só, e a lista de artistas com os quais ela colaborou certamente expressa isso. Seja nas pesadas bombas de Missy Elliot, na mansuetude do álbum visual de Frank Ocean, Endless, ou no groove orgânico de Mary J Blige, Jazmine é responsável por um estilo híbrido, que mistura tanto a precisão minimalista quanto a potência dos temas que escolhe. Talvez por isso tenha sido tão procurada pelos artistas: para que pudesse dar voz a suas urgências a partir de recursos de composição tão diversos.

Mas, entre tantos discursos, Jazmine nunca se esqueceu de dar espaço à sua voz, e é justamente aí que seus discos solos entram. Ela tem feito música desde 2002 e, por esse motivo, ter apenas três discos solo em quase 20 anos pode parecer pouco. Entretanto, em entrevistas, a compositora já revelou que o motivo da demora entre os álbuns (quase como se fossem mini hiatos) diz respeito ao tempo necessário para processar e decifrar sentimentos e ímpetos criativos. Quase cinco anos separam cada lançamento e este período funciona como um ciclo necessário de renovação e inventividade. Seu último trabalho (Reality Show, de 2015) possui um aspecto quase confessional, entre fusões minuciosas entre R&B e Trap, além de toques Ambient, que deram todo o charme para o registro. Cinco anos depois, Jazmine muda um pouco sua estratégia. Em vez de ceder todo o espaço para que sua própria voz se projete, ela permite que outras mulheres entrem em seu universo para manifestar discursos próprios. Jazmine procura, nas expressões dessas mulheres, por aquilo que, em outras situações, não poderia ser dito. Os personagens principais de Heaux Tales são justamente as conversas que Jazmine teve com suas amigas e conhecidas sobre as impossibilidades de existir em certos contextos.

É até estranho chamar este registro por sua natureza formal de EP. Heaux Tales soma 14 faixas, dentre as quais temos seis interlúdios essenciais para a construção conceitual do disco. Neles, Jazmine faz literalmente o que o conceito do disco propõe: dar voz aos discursos de mulheres. Machismo, sexismo, body shaming, causas sociais, bem como a interseccionalidade entre essas questões, são alguns dos temas presentes nas narrativas E o repertório ainda é incrementado por aparições de referências do R&B recente, como H.E.R., Ari Lennox e Anderson .Paak. Assim, Jazmine atua como mediadora de vivências e, ao mesmo tempo que respeita os espaços das outras mulheres, todo o contexto e inspiração para Heaux Tales vêm de experiências próprias e da necessidade que ela sentia de conversar sobre tais temas.

Muitos deles vêm de experiências de relacionamentos abusivos pelos quais Jazmine passou nos últimos anos e a consequente compreensão destes episódios. Sentimentos como vergonha, raiva, amor próprio, entre outros, servem como diretrizes para cada faixa e, assim, o disco ganha uma característica múltipla, na qual cada composição revela um aspecto primordial de cada experiência – sejam de Jazmine ou das mulheres que ganham voz no disco. “Pick Up Your Feelings” reúne os cacos emocionais remanescentes, com a influência Gospel fundida ao suingue do R&B. “On It” mostra todo o talento vocal de Jazmine, com um toque sedutor aos moldes de D’Angelo. “Lost One” é um daqueles momentos em que a batida é desnecessária, dando espaço para que as melodias e harmonias se esparramem por todo o espaço e transborde para dentro do ouvinte.

Jazmine pode ter colecionado hits e composições para outros artistas, mas sua capacidade de escutar os outros – e a si mesma – a eleva a um patamar que transcende as linhas de crédito de uma música. Heaux Tales é plural e, por isso, soa tão sincero e arrebatador. Jazmine enxerga em cada palavra, em cada vivência, uma possibilidade de explorar o mundo à sua frente e dentro dela.

(Heaux Tales em uma faixa: “Pick Up Your Feelings”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.