Resenhas

Jenny Hval – Blood Bitch

Novo álbum da cantora norueguesa tenta aliar climas sombrios e eletrônica

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Ano: 2016
Selo: Sacred Bones
# Faixas: 10
Estilos: Folk Alternativo, Pop Alternativo, Eletrônica
Duração: 35:12
Nota: 1.0
Produção: Jenny Hval

Às vezes é preciso recorrer a outras formas de arte para elaborar referências e reminiscências sobre o que escrevemos. Por exemplo, vejam o caso de Blood Bitch, este novíssimo disco da cantora e multinstrumentista norueguesa Jenny Hval. Enquanto as canções iam e vinham pelas caixas de som, tive a impressão de estar numa passagem do filme A Bruxa de Blair, não as mais assustadoras e sim aquelas iniciais, nas quais os adolescentes, prestes a experimentar momentos terríveis e mortais, se congraçam, se azaram, brincam e celebram a vida. Também me lembrei de passagens distintas da Trilogia Crepúsculo - que eu nunca vi – nas quais o casal protagonista interage nas matas temperadas do Norte, em meio à chuva, ao cinza e o frio, enquanto as piores facetas de Björk e Thom Yorke, frutos de abdução por forças malignas, adentram o roteiro para comandar uma ciranda de elfos renegados. Pois é, amigos, o disco não me fez bem.

O problema de Jenny não é sua voz, que é bem boa. Nem sua abordagem da Eletrônica minimalista, que e razoável. Tampouco a qualidade de suas composições, que são na média. A questão maior é que tudo por aqui parece feito apenas (e de forma excludente) para fãs meninas que orbitam o universo “quero ser bruxinha Wicca online enquanto sou classe média e desfruto dos meus confortos tecnológicos”. Além disso, além de qualquer coisa, o álbum é monótono, tentando ser sensacional e moderníssimo o tempo todo – sem conseguir. Em outras horas, simplesmente, parece que Jenny está tirando um imenso sarro do ouvinte, até mesmo das bruxinhas Wicca online.

In The Red, por exemplo, é conduzida por samples de respiração. A ideia era construir algo tenso, percussivo e lento, num crescente de sensações, mas só consegue soar como se um cachorro tivesse invadido a canção e arfasse bem perto dos microfones. Em Untamed Region, em meio a ruídos da natureza, de climas eletrônicos minimalistas e samples de vozes indistintas, ela tenta erguer outro panorama de tensão e suspense, mas resvala para a caricatura disso tudo ou, na melhor das hipóteses, para algo apenas tedioso e sem graça. As canções iniciais, Ritual Awakening e Female Vampire já entregam o ouro por seus títulos grandiosos, que escondem essa falta de criatividade travestida de novidade pós-modernosa.

O resto do álbum segue por este caminho, com mais momentos de penitência para o ouvinte. As canções desaguam em confusões intencionais de samples, que visam criar o caos, mas só enchem o saco de quem estava começando a gostar a melodia, caso explícito de The Great Undressing, que abre mão da estrutura melódica para incorporar mais vozerio indistinto, como se Jenny tivesse ido tomar um café e deixasse seu teclado ligado e o microfone do estúdio captasse o ruído ambiente. Nada, no entanto, é pior que The Plague, quase seis minutos de autoindulgência e ausência de bom senso, um verdadeiro desperdício de tempo. Conceptual Romance deve seus fundilhos ao cânon björkiano inicial, correndo lenta e dramática, numa exceção ao que temos por aqui. Outro momento aceitável é Period Pace, que parece algo feito por Kate Bush quando está dormindo.

Se você ouvir o álbum após ler esta resenha e não se inserir no público-alvo explícito da artista nesta empreitada, não vá responsabilizar o pobre articulista pelo dano causado. Pense bem.

(Blood Bitch em uma música: The Plague)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.