Resenhas

Jenny Hval – Classic Objects

Artista multidisciplinar investe novamente no caminho da auto investigação emocional em seu disco mais acessível até o momento

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Ano: 2022
Selo: 4AD
# Faixas: 8
Estilos: Ambient, Lounge, Indie Pop
Duração: 42'
Produção: Jenny Hval e Kyrre Laastad

Agora que a pandemia começa a mostrar sinais de que está perdendo força, começamos a olhar para a produção musical deste período com um olhar cada vez mais distante. Em dois anos, o conceito de “disco de pandemia” ganhou bastante força e o que para alguns artistas poderia ter sido um impedimento, tornou-se um instigador criativo. Muitos tiveram que recorrer a diferentes estratégias, investir em estúdios caseiros e superar desafios de logística para continuar a produzir seus álbuns e, nesse movimento, muitas sonoridades mudaram – em consonância com a vida cotidiana. Houve experimentalismos mais ferozes, bem como reduções drásticas apelando para o minimalismo musical. Muitos tornaram suas canções mais políticas, advertindo para as contradições e imbecilidades dos governos. De uma forma ou outra, tudo mudou e Jenny Hval não é uma exceção. Entretanto, os efeitos da situação pandêmica aumentaram uma perspectiva muito única de sua obra: a constante auto investigação. Ao invés de olhar cada vez mais para fora, ela mergulhou completamente dentro de si.

Na época em que fazia parte do selo Sacred Bones, Jenny utilizou de uma linguagem amplamente experimental para dar vazão à confusão de sentimentos internos. Era como se este fosse o passo inicial em direção para dentro, domando todo espectro emocional e tentando lhe dar uma forma, ainda que mantendo um pouco do caos original. A partir de então, sua habilidade em refletir sobre si mesma começou a render linguagens mais concretas. The Practice of Love (2019), por exemplo, cedeu espaço para timbres e sonoridades mais psicodélicas, algo entre o indie rock e o dream pop. Até mesmo as palavras de um disco não foram suficientes para dar vazão ao seu interior, rumando em direção à literatura e publicando dois livros: Girls Against God e Paradise Rot. Parece que Jenny tem uma incansável saciedade de se conhecer e, com novos eventos e vivências, ela se permite ousar nestas diferentes formas de expressão. Com a pandemia, isso apenas se intensificou e o resultado é um disco que tenta se livrar de todos os excessos anteriores. Não de uma perspectiva sonora, mas conceitual.

Classic Objects é um trabalho que narra a tentativa da artista de responder a uma pergunta: “Quem é Jenny?”. Para além de um foco meramente existencial, Jenny procurou compreender sua essência sem rótulos e nomes comumente atribuídos. É como se ela tivesse se enxergado sempre através de diferentes lentes e, agora, essas lentes fossem dispensadas. Em um texto publicado em seu Bandcamp, ela conta que a pandemia foi uma das principais responsáveis por instigar nela este tipo de questionamento, uma vez que, impossibilitada de performar e realizar shows, ela se deparou com ela mesma (no inglês “just me”). Dessa forma, essa questão parte para compreender quem é Jenny Hval –  não exatamente a “artista”, “compositora”, “mulher”, “filha”, etc. Para isso, ela escolheu compor 8 faixas que trazem todo este diálogo interno representado por pequenas histórias, que conservam um cunho autobiográfico característico de sua obra, mas também deixam fluir muita poesia para que os significados deslizem diretamente para nosso interior.

Para dar a vida a sua própria história, Jenny recorre a uma sonoridade viva, quase um compilado de diferentes discos passados – o que contribui naturalmente para o propósito auto investigativo do disco. Por exemplo, “Year Of Love” introduz o disco em um clima eletrônico dos anos 9190, puxando referências da lounge music, mas com espaço para uma percussão malemolente. “American Coffee”, por sua vez, abrange dois espectros: um mais pautado nas reverberações infinitas da ambient music e melodias mais acessíveis, bem diferentes de seus primeiros trabalhos. O pop também fica presente entre as percussões ritualísticas de “Year of Sky”, dando um aspecto ambíguo e instigante. Por fim, “The Revolution Will Not Be Owned” adota um tom político, porém colocado sob diferentes metáforas e conceitos como “utopia” e “sonhos”.

Apesar de Jenny Hval trabalhar com diferentes mídias e linguagens, ela é uma filósofa por excelência e Classic Objects é um de seus tratados mais sensíveis e profundos. Ele traz uma nova dinâmica para os “discos de pandemia”, propondo não um isolamento completo, mas uma percepção de como as coisas “de fora” e “de dentro” estão todas misturadas. É com essa sensibilidade que Jenny coloca no mundo o seu trabalho mais acessível até então – não apenas em termos de gêneros musicais e melodias, mas da própria capacidade humana de se questionar a todo instante.

(Classic Objects em uma faixa: “Year of Love”)

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ARTISTA: Jenny Hval

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.