Resenhas

Jeremiah Jae – Bad Jokes

Após um ano de seu debut, músico lança mixtape ainda experimental mas coesa, demonstrando que não é a toa que Flying Lotus quer ser seu parceiro de trabalho

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Ano: 2013
Selo: Warp
# Faixas: 9
Estilos: Hip Hop
Duração: 25:00
Nota: 4.0
Produção: Flying Lotus, Jonwayne, Oliver The 2nd

Ano passado, Jeremiah Jae já dava sinais de estar caminhando em terrenos do Hip Hop contemporâneo, com uma mistura de um pouco de Jazz em batidas livres, elementos eletrônicos em excesso e bastante peso na voz e na atmosfera. Denso como a névoa matinal que denuncia a mudança de temperatura, seus versos e estilo musical o deixavam com uma aura de rapper cru. Longe de ser um defeito, era mais uma constatação de que algo parecia faltar em meio a toda essa mistura.

Na curta e boa mixtape Bad Jokes, feita mais uma vez em parceria com [Flying Lotus], as coisas parecem menos experimentais e mais espontâneas. A utilização de samples traz o frescor aos socos diretos versados que Jae passa e faz com que o seu leque de criações fique mais amplo, mais leve, como em Seventy 8, faixa com uma batida construída no xilofone, divertida e que se propõe arrancar um sorriso dos ouvintes pela sua criatividade, sem antes enganar que o dark sempre será intrinseco ao músico. Ao final, a batida muda, e um Funk setentista Exploitation dá o tom sexy.

Aliás, apesar de poucos minutos de duração, a mixtape consegue ir mudando o seu tom não só entre músicas, mas dentro das próprias, como as falas trocadas em Oatmeal Face, como se mudássemos de canal a cada 10 segundos, faixa experimental e excelente, ou o barulho de vaporizadores na psicodélica Soul Yoga (Indian Man) mesclados com um flauta indiana e risadas irônicas. Aliás, rir é um tema constante na obra e a abertura de Evil Laugh denuncia uma desconcentração de certa forma nervosa.

Tantas texturas trazem o peso de forma diferente à música de Jae e, ao seguir, os passos do tutor Lotus, abrem portas para divisão dentro do próprio Hip Hop. Enquanto o peso parece ser a característica mais marcante, a livre experimentação dentro das batidas torna o rapper um elemento raro e de certa forma díficil de se entender logo de cara. Seus samples muitas vezes parecem cortes rápidos, feitos em tempos de YouTube e GIFs animados. Repetidos, mostram a sua graça e a inteligência do músico em conseguir capturar a essência de elementos incertos.

As piadas ruins de Bad Jokes são, na verdade, tiros certeiros de Jeremiah, demonstrando que o que parecia ainda raso em seu último trabalho já se torna um pouco mais profundo. Quase não se vê os pés na água escura de sua música – o que é excelente, pois a inovação acaba sendo a salvação de qualquer estilo musical. Escute Guns N Butter com uma batida feita com dizeres incompreensíveis ou baixo sintético de King Raid, que tira o ouvinte de sua zona de conforto e veja se agora, realmente não estamos diante da evolução do Hip Hop. Se as coisas continuarem assim, ano que vem teremos uma obra prima de Jae.

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ARTISTA: Jeremiah Jae
MARCADORES: Hip Hop, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.