Resenhas

Jesca Hoop – Memories are now

Cantora e compositora americana grava ótimo álbum

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Ano: 2017
Selo: Sub Pop
# Faixas: 9
Estilos: Rock Alternativo, Singer Songwriter, Folk Alternativo
Duração: 37:32
Nota: 4.0
Produção: Blake Mills

O Pop sempre tem boas histórias. Veja, por exemplo, o caso de Jesca Hoop, que começou sua carreira pelas mãos de ninguém menos que Tom Waits. A moça trabalhava como babá na casa do velho bardo e, nas horas vagas, compunha e dedilhava seu violão. Waits gostou do que viu e apadrinhou as primeiras gravações da menina. Só que Hoop está longe de ser uma cantora Folk banal. Ela insere elementos de esquisitice em suas performances e registros, mas não abre mão da influência de figuras mais clássicas, como Joni Mitchell, por exemplo. Além disso, há um bem vindo clima Rock nas canções, não por elementos simples como uso de guitarras e configurações, mas pelo espírito livre de Hoop, que parece sempre disposta a desafiar gente mais forte ou comprar o barulho de oprimidos. Pensando bem, é a mesma coisa, mas esta postura, que parece genuína, confere grande força a seu trabalho, destacando-a da multidão de fadinhas da floresta e urbanetes conectadas. Vejamos o este excelente Memories Are Now tem pra nos contar.

A boa produção de Blake Mills, com quem Jesca trabalha há algum tempo, faz, como dizem os comentaristas esportivos, uma boa leitura de suas habilidades. Neste caso, seus vocais docemente juvenis, no sentido sensual do termo, são colocados em primeiro plano, justamente por conta da emoção que conseguem transmitir. Cada canção soa como um pequeno rito de passagem, que pode – ou não – fugir do controle, de acordo com o andamento da canção, do arranjo. O trabalho com os vocais de apoio também são primorosos. Mills também é inteligente ao optar por um instrumental esparso, mas que não significa lento, contemplativo, pelo contrário. Vão sendo construídos climas e expectativas logo a partir da primeira faixa, que dá nome ao álbum e parece prestes a irromper uma tempestade sônica, que, entretanto, nunca chega.

O álbum tem belas passagens, que expandem as fronteiras do chamado Freak Folk, abrindo mão do excesso de estranheza – às vezes o grande vilão do estilo – em favor de mais sutileza. Jesca soa mais forte e contundente em The Lost Sky, com a capacidade de alternar tons mais graves e agudos na mesma interprestação, em meio a um andamento de baixo e bandolim, novamente construindo a ideia de que, mais à frente, em algum momento, o céu vai abrir e uma revoada de trovões irá tomar conta de tudo. Há espaço também para um ar lúdico e irônico, caso explícito de Animal Kingdom Chaos, no qual Jesca discorre sobre acasos e paradoxos do ser humano, este bicho complexo que pensa ser capaz de tudo, custe o que custar. Simon Says tem, sim, uma refrescante guitarra em seu arranjo, novamente com destaque para a excelente trama de vocais de apoio e principal.

Outros ótimos momentos surgem em quase todas as faixas. Há um clima marcial em Cut Connection, com uma selvageria contida, parecendo uma represa prestes a romper e inundar uma cidade próxima. Temos a gentileza dedilhada na suavidade de Songs Of Old, quase uma canção de ninar sobre passados nem sempre pretéritos perfeitos. Unsaid é quase uma prima temporona do Rock Alternativo noventista americano, com belezura e sensualidade implícitas. As duas últimas canções, Pegasi e The Coming são opostas pelo vértice: a primeira é uma gentil balada ao violão, com tudo sugerindo céu azul e felicidade pós-inverno, enquanto a segunda é um espécime noturno, pungente, quase uma aquarela de tons escuros, porém, guardando o mesmo clima esparso e estranho – no melhor sentido do termo – que o álbum guarda.

Memories Are Now é um álbum pensado e trabalhado com um conceito que respeita as características de Jesca, valorizando-as. Tem ótimas canções, interpretações que mostram entrega e amor, além de um clima permanente de mistério e estranheza, na medida certa, nos despertando curiosidade e nos levando a caminhos estranhos. É assim que tem que ser.

(Memories Are Now em uma música: Pegasi)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.