Resenhas

Jessy Lanza – All The Time

Alternando peso e suavidade, terceiro disco reforça o aspecto escapista da artista canadense, mas o ressignifica em tempos de isolamento social

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Ano: 2020
Selo: Hyperdub
# Faixas: 12
Estilos: Synthpop, Bedroom Pop, Indie Pop
Duração: 38'
Produção: Jessy Lanza e Jeremy Greenspan

Jessy Lanza é uma artista do escapismo. Com referências que vão desde o R&B até o Bedroom Pop, a cantora, produtora e compositora canadense, em sua curta e intensa discografia, oferece ao ouvinte uma imersão em um oceano de sonoridades autênticas, tirando completamente o foco do mundo externo e direcionando-o para as próprias profundezas de seu som.

Seu disco de estreia Pull My Hair Back, que recebeu elogios calorosos da crítica e foi eleito o quarto melhor disco de 2013 pela Resident Advisor, expressa esta característica de forma concentrada, tanto pela musicalidade cativante quanto por letras de extrema sensibilidade e de exposição da vulnerabilidade. A construção melodramática e intimista lhe rendera comparações com sua conterrânea Grimes, principalmente na época do lançamento de seu segundo disco, Oh No (2016). Mas isso nunca pareceu abalar Jessy Lanza e sua paisagem fugidia.

Quatro anos depois de Oh No, o contexto é completamente outro, bem como a relação com a fuga. Hoje, não nos escondemos por vontade, mas por necessidade. A quarentena, como não poderia deixar de ser, deixou marcas em Jessy Lanza e isso fica evidente em All The Time, seu novo álbum. Composto em 2019 e atravessado pela pandemia, este é o primeiro trabalho da artista feito de forma remota. Seu parceiro de produção, Jeremy Greenspan, a acompanha mais uma vez – porém do Canadá, enquanto ela estava em Nova York.

Entretanto, o que deveria ser um empecilho, revelou-se uma nova oportunidade para potencializar a marca fundamental das músicas de Jessy. All The Time aproveita o momento de isolamento, não para fugir das coisas, mas para encará-las de frente e usa suas doces harmonias como principal apoio para uma tarefa tão difícil.

Jessy insere um uso pontual de sintetizadores analógicos, trazendo um calor próprio destes equipamentos. Há um toque de nostalgia evidenciado em timbres típicos dos anos 80/90, o que dialoga com a proposta reflexiva do disco, e soa como exercício de ressignificação do passado. Suas letras passam por variados temas, como construção da feminilidade em uma cultura patriarcal, ansiedade, amor e sucesso. Uma profunda investigação emocional que sensibiliza o ouvinte e que, ao mesmo tempo, o convida a fazer o mesmo. Podemos não nos engajar nos mesmos temas, mas o ambiente construído é de troca e nos toca da mesma forma que as composições o fazem com a autora.

“Anyone Around” dá o disparo inicial em uma mistura de vocais melódicos com uma espécie de híbrido de Trap/R&B – peso e suavidade convivendo em harmonia no mesmo terreno. “Face” veste uma roupagem mais própria do Rap, mas, ao ceder o espaço dos baixos graves a um som mais fantasmagórico de sintetizadores, propicia uma atmosfera envolvente e tenebrosa. “Ice Creamy” é um grande experimento e brinca coo sonoplastias, efeitos vocais e harmonias que se alternam entre incômodo e conforto, como um jogo de sensações brilhantemente orquestrado. Por fim, a faixa-título traz um suingue dos anos 1970 permeado por uma textura açucarada e nos coloca para dançar sozinhos em casa, mesmo que não haja uma batida padrão.

Nesses contrapontos é que Jessy Lanza edifica seu isolamento. O escapismo típico de sua discografia não é feito de uma maneira totalmente solitária ou misantropa. E o resultado nos aproxima da artista – que também nos estende a mão. Um disco construído a partir de uma fuga da realidade e que, paradoxalmente, parece ter mais a ver com encará-la de frente, com ainda mais emoção.

(All The Time em uma faixa: “Ice Creamy”)

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ARTISTA: Jessy Lanza

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.