Jim James – Eternally Even

Cantor e guitarrista de My Morning Jacket se afirma solo

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Ano: 2016
Selo: ATO
# Faixas: 9
Estilos: Rock Alternativo, Pop Alternativo, Singer Songwriter
Duração: 41:26
Nota: 4.0
Produção: Jim James e Blake Mills

Ao lado de Justin Vernon (Bon Iver), Jim James é o grande responsável por uma sutil e importantíssima reinvenção do Folk no século 21. O gênero sempre foi presente, apesar de meio deixado pra escanteio nos anos 1980/90, em favor de sonoridades mais comerciais e/ou pesadas. O modelo que estes dois sujeitos arquitetaram passa por um abraço à música eletrônica, um beijo no rosto da psicodelia floydiana, flertes firmes e fortes com climas e ambiências da Soul Music, além de uma ênfase nos ensinamentos jogados ao vento por Neil Young em suas criações folksters mais conhecidas. O resultado foi o surgimento de bandas e projetos geniais como My Morning Jacket, Bon Iver e todo mundo que veio na esteira deles, de Band Of Horses a Fleet Foxes, passando por um sem número de outras bandinhas, bandecas e artistas solo. Sendo assim, é sempre motivo de celebração quando um cara como James surge com material novo.

Apesar de uma carreira considerável com o MMJ, Eternally Even é o segundo álbum solo de James. Ele soltou um belo EP beneficente em 2009, Dedicated To, no qual gravou covers espectrais de canções compostas por George Harrison, estreando num álbum autoral somente em Regions Of Light And Sound Of God, de 2013. Esta é, sem dúvida, sua melhor realização fora de seu grupo, um trabalho consistente, tanto pelo bom uso da voz de Jim quanto pelo instrumental, que parece discreto e pontual, mas tem papel definitivo no álbum, contribuindo para o surgimento de grandes momentos ao longo das nove canções. Ouvintes atentos já perceberam o quanto ele é fã de música Soul, especialmente da variante sulista do estilo. Nativo do Kentucky, não espanta que JJ tenha familiaridade com essa música, algo que soa muito natural em suas criações. Em Eternally Even é possível dizer que cada faixa tem um aceno diferente a esta musicalidade própria, algo que é bonito de se perceber.

O charme é que tais citações e influência não se fazem notar da maneira mais óbvia. James não copia fraseados ou sampleia trechos de canções velhuscas, mas se apropria da capacidade dos velhos mestres de criar climas que contaminam andamentos, métrica e mesmo os arranjos das músicas sem torná-las datadas em nenhum momento. Dessa forma, mesmo separado por décadas do momento de criação dos grandes standards Soul, Jim James tem moral para ser aconchegado em local próximo dos admiradores sinceros do estilo, sem forcação de barra. E como se dão estes resultados nas canções? Hide In Plain Site, a faixa que abre o álbum, tem um andamento em câmera lenta, com voz sussurrada e uma intervenção constante de órgão Farfisa, que torna a melodia tensa e quase espiritual sem soar ingênua, pelo contrário. Same Old Lie, logo em seguida, tem levada mais próxima do Pop, com belos vocais de apoio e um refrão que soa chato às vezes, mas não atrapalha o resultado.

Here In Spirit tem pouca relação com essa influência, afinal de contas, Jim James tem outras referências. Aqui a doçura Folk dá o tom, sobretudo na onipresença do piano e na belezura do arranjo, apesar de haver algo de Gospel presente. The World’s Smiling Now já retorna à magia induzida do flerte. Tem piano e teclados pontuando a melodia e a letra, que fala de otimismo. As duas partes de We Ain’t Get Any Younger Now surgem emenadadas e brincando com fraseados progressivos, psicodélicos e Pop, sem dano para nenhuma das partes envolvidas, mostrando a habilidade do sujeito em misturar tudo e sair com algo que parece novo.

A dobradinha True Nature/In This Moment é o grande momento do álbum. A primeira cheia de metais e pinta de clássico, esbanja qualificações e deve soar ainda mais encantadora ao vivo, enquanto a segunda é mais introspectiva, porém com uma melodia luminosa. O encerramento surge com a faixa-título, lenta e cinematográfica como só ela, conduzida por teclados, com espaço para Jim soltar sua voz e seu agudo, algo que, curiosamente, ele faz pouco nas outras canções do disco. Clima pastoral, cidade sob a chuva, tarde vendo o mar quebrar na praia deserta, você escolhe sua paisagem.

Jim James é figura importante na música do nosso tempo. Moderno pelo respeito às tradições, entendendo que reinventá-las é próprio do tempo que vai passando, ele sempre oferece belas criações. Aqui não é diferente, neste disco cheio de bom gosto. Ouça.

(Eternally Even em uma música: True Nature)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.