Jim James – Uniform Distortion

Vocalista da banda My Morning Jacket brilha em mais um trabalho solo

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Ano: 2018
Selo: ATO
# Faixas: 11
Estilos: Rock Alternativo, Folk Alternativo
Duração: 40:52
Nota: 4.5
Produção: Jim James e Kevin Ratterman

Ah, rapaz, que disco legal. Jim James, o vocalista e cérebro da banda My Morning Jacket tem uma carreira solo simpaticíssima e cheia de bons discos lançados. Ele busca sonoridades mais simples/despojadas em relação ao que fazia com sua banda principal, optando sempre por boas soluções em termos de produção e gravação. Canções acústicas, EPs de covers, discos mais complexos, James tem versatilidade e criatividade de sobra. Agora, com este ótimo Uniform Distortion, o sujeito resolveu montar um trio, no qual ele empunha guitarra e canta, secundado por David Givan na bateria e Seth Kaufman no baixo e só. Minto, além deles, um naipe de vocais de apoio. A ideia de Jim é pegar inspiração na caixinha que Neil Young deixou esquecida desde o início dos anos 1990. O resultado? Um disco tão bom que poderia ser do próprio canadense, caso ele ainda tivesse o mesmo fôlego de quase 30 anos atrás. Convenhamos, é um baita elogio.

A proposta de Uniform Distortion é soar enguitarrado, alto e sujinho. O álbum só não tem cara de mau porque ostenta pequenas e bem resolvidas gemas melódicas da mais pura tradição roqueira dos anos 1970. Arranjos simples, porém, bem feitos, ressaltam sempre a oscilação entre barulho de guitarras e doces harmonias e refrãos iluminados, causando aquela sensação de dualidade gostosa e meio desconcertante. Nom fim das contas, é diversão garantida ver como James consegue aliar pedais e vocais harmoniosos sem cair na armadilha dessas revisitações Power Pop que costumam surgir por aí, falando de sol, de verão e amorzinho. O tema aqui é o aprendizado com o passado, a reinvenção diante dos cacetes do cotidiano e como enxergar algum lado brilhante na estrada da vida, assuntos que são típicos de alguém que está adentrando na casa dos 40 anos. E JJ sempre teve a boa qualidade de cantar a verdade de sentimentos.

Todas as onze faixas possuem alguma virtude a ser destacada, mas, se você quiser um atalho para a felicidade total, vá direto para Throwback, a quarta canção, que tem uma linha melódica que poderia estar em discos como Harvest Moon, do próprio Neil Young. Em algum momento da gravação, o próprio James dá uma risada, que permaneceu no take final, como alguém que está fazendo o que queria, no lugar onde gostaria de estar. É simples, dura dois segundos, mas encapsula toda a essência do álbum. Outro momento memorável está na faixa seguinte, a igualmente youngiana No Secrets, que já acena para outro momento da carreira do velho canadense, mais precisamente o início dos anos 1970, quando gravou belos discos com sua banda de apoio, Crazy Horse. O destaque aqui fica por conta das sutilíssimas intervenções dos vocais de apoio, que pontuam a melodia com precisão cirúrgica. James também segue cantando lindamente, oscilando timbres rascantes e agudos que beiram o sentimento Soul, algo que ele já fez com maestria em seu MMJ.

Outros momentos dourados: Yes To Everything, com um pouco mais de poeira da estrada e o verso inicial, que mata a charada: “there was a time when I said yes to everything”, falando de inocência e mudança consequente. Há certa aura springsteeniana logo na abertura de Better Late Than Never, mas o registro vocal de JJ surge parecidíssimo com o de Joey Ramone, algo inesperado e acenturado pelo andamento rápido que a canção ostenta. Comichões de guitarra permeiam Over And Over, que tem melodia sessentista e doçura calculadas, abrindo exceção em meio ao clima adulto do álbum. O fm surge resplendoroso com a balada pungente que é Too Good To Be True, linda, solene e cheia de emoção.

Jim James fez apenas seu melhor disco solo, mas quase superou toda a sua produção à frente de My Morning Jacket. Registrou um álbum rock, belo, lírico e capaz de sobreviver ao ritmo rápido do cotidiano que engole boas canções. Um inesperado feito.

(Uniform Distortion em uma música: Throwback)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.