Resenhas

João Gomes – Digo ou Não Digo

Em segundo álbum de estúdio, pernambucano amplia a paleta de sons, absorvendo influências que vão da MPB de rádio FM ao trap, e refaz seu piseiro a partir de vocabulário pop

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Ano: 2022
Selo: JG Shows/Believe
# Faixas: 15
Estilos: Pisadinha, Forró
Duração: 41'
Produção: Arine Music

Não faz nem um ano que João Gomes despontou nas redes sociais com o viral “Meu Pedaço de Pecado” (aquela do “hã, hã, hã, hã”) e, desde então, o som do cantor de 19 anos passou por transformações cruciais — e ao mesmo tempo quase imperceptíveis de tão sutis.

Quando estreou com o álbum Eu Tenho a Senha, o pernambucano do município de Serrita surgiu como um renovador do forró que, no entanto, estava profundamente inserido e consciente da história do gênero. João despontava como um elo entre a nova onda eletrônica da pisadinha e as tradições do forró de vaquejada e do aboio — como se podia notar nas temáticas daquelas primeiras canções e nos nomes que ele mencionava como referências, caso do alagoano Kara Veia e do paraibano Pinto do Acordeon, que lhe inspirou ao falar, em entrevistas, que “para cantar forró precisava ter voz de vaqueiro”.

Em Digo ou Não Digo, seu segundo álbum de estúdio, João Gomes amplia a paleta de sons para outros territórios, absorvendo influências que vão da MPB de rádio FM ao trap, e refaz o seu piseiro a partir de um vocabulário de música pop. O bordão “pegada de vaqueiro” continua presente, bem como a enigmática dicção arrastada e o grave de sua inconfundível voz sertaneja. Mas as referências ao universo da vaquejada (que ouvíamos em “Que Nem Vovô” e na própria “Eu Tenho a Senha”) cederam lugar de vez para as letras de amor, bem esculpidas em um perfil melódico irresistível, prontos para as multidões dos grandes palcos do país.

É bem verdade que as pistas da verve radiofônica de João e seu ouvido sem restrições de gêneros musicais estavam presentes ainda em Eu Tenho a Senha. “Mete um Block Nele”, um de seus maiores hits, era uma canção dos artistas de rap e R&B West Reis e Luiz Lins cujos versos foram transpostos para o ambiente da vaquejada. Mas nos poucos (porém intensos) meses entre um álbum e outro, com uma sequência de shows quase ininterrupta, João Gomes aproximou-se ainda mais de outros campos musicais. Entre as faixas mais marcantes de suas apresentações (que podem ser ouvidas nos tais “repertório atualizado”, comuns no showbiz do Nordeste) estão “Ela Tem” (versão de uma música lançada por Orochi em 2016),  “Outra Vida” (de Armandinho, aquele mesmo do “quando Deus te desenhou”) e “Amado” (de Vanessa da Mata).

Em Digo ou Não Digo, essas experiências de crossover se concretizam. Percebe-se isso logo na formação do tracklist, que reúne desde o trapper Oruam (“Terra Prometida”) ao pop adolescente de Giulia Bê (“Se Essa Vida Fosse um Filme”), passando ainda pelo pop rock MTV de Pitty (“Me Adora”). Mas, para além disso, o vocal de João também parece ter incorporado novas informações e estilos, fruto de suas escutas recentes — como fica nítido no flow acelerado de “Pode Ficar” e na introdução meio rap de “Dengo”, que tem tudo para ser o carro-chefe do disco. Acrescente ainda o brilhantismo do diálogo entre João e seu amigo de infância, o sanfoneiro Jeovanny Gabriel, que colore e floreia os vocais com exuberância, dando mais nuances às melodias.

De um ponto de vista um tanto quanto sociológico, pode-se dizer que estamos diante de uma obra que materializa o cruzamento do rural e do urbano, ou de uma urbanização dos interiores do país. E que, do ponto de vista da cultura, as trocas de informações cada vez mais aceleradas no mundo digital contribuem diretamente para este resultado. Acontece que tal visão não dá conta das particularidades de João Gomes. Ele não é o único a apoiar os pés no forró olhando para o pop, vide os clipes de Zé Vaqueiro com figurinos que evocam o The Weeknd e são envoltos nos teclados à la A-Ha. E mesmo assim, quando postos lado a lado, João Gomes ainda é radicalmente diferente de Zé Vaqueiro nos palcos, nos discos e nos clipes.

Mas o que torna João Gomes tão único? É que o aboio está entranhado tão profundamente em sua vida e no DNA da sua expressão musical. O movimento de João Gomes é menos tornar-se pop, mas reler o vocabulário pelo seu local de origem. É um projeto de renovação que está sempre fincado nas histórias de quem veio antes. Ao fim de Digo ou Não Digo, vemos que o futuro tem um coração antigo.

(Digo ou Não Digo em uma faixa: “Dengo”)

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ARTISTA: João Gomes