Joe Armon-Jones é um dos nomes mais interessantes da cena jazzística britânica dos últimos anos. Integrante do Ezra Collective, que mistura ao jazz, elementos de afrobeat, funk e outros estilos afro-diaspóricos, o tecladista também ficou amplamente conhecido por suas colaborações com outros artistas da cena, nomes como Moses Boyd, Tony Allen e, mais notavelmente, a saxofonista Nubya Garcia, com quem compartilha essa estética de um jazz moderno e aberto a influências do mundo todo. O caminho até All The Quiet (Part 1) começa ainda durante a pandemia de COVID-19, período em que o músico e produtor passou a maturar ideias em meio ao isolamento. A partir dessas reflexões e de seu grande fascínio pelo dub jamaicano — especialmente a estética única do lendário King Tubby —, Armon-Jones decidiu montar seu próprio estúdio, o Aquarii, no fundo de casa, pensando em criar um ambiente que refletisse sua personalidade, resgatando equipamentos vintage e experimentando com inúmeras possibilidades. O estúdio se tornou não apenas uma ferramenta, mas parte integral do processo criativo desse disco.
All The Quiet (Part 1) é um registro que se alimenta da pluralidade. O jazz se desdobra em diversas direções: ora encontra a cadência ritualística de Asheber em “Kingfisher”, ora mergulha na lírica introspectiva de Goya Gumbani em “Eye Swear”, criando pontes entre a tradição e a experimentação urbana do rap. É um álbum provocante que abraça a variedade, sem jamais perder seu fio condutor — o próprio Armon-Jones, que, como produtor, tem a habilidade de criar um universo único para cada faixa. Seu estilo de produção é fortemente baseado em gravações físicas, efeitos analógicos e uma sensibilidade dub que dá coesão ao conjunto. Os ecos, reverbs e saturações presentes aqui não são meros enfeites: eles carregam um ethos, desenvolvendo uma atmosfera que amplia e, ao mesmo tempo, conecta elementos, a princípio, dispersos.
No geral, ouvir All The Quiet (Part 1) é mergulhar em uma experiência sonora envolvente, cadenciada e que te convida à contemplação e ao transe. Há momentos de uma leveza líquida (como na abertura “Lifetones”), outras com teclados flutuantes e enevoados (“Hurry Up & Wait”), mas também há passagens de maior densidade emocional, em que os graves e os efeitos psicodélicos tomam conta do espaço (como nas curtinhas “Danger Everywhere” e “Show Me”). A mixagem física é sentida nos detalhes: nas pequenas imperfeições, nas texturas orgânicas, no respiro que cada música carrega. Gostou desse primeiro mergulho? Então, saiba que essa é apenas a primeira metade do projeto. A segunda parte, prevista para os próximos meses, promete expandir ainda mais esse universo mutante e fascinante que Armon-Jones vem construindo.
(All The Quiet (Part 1) em uma faixa: “Nothing Noble”)
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