Resenhas

Joey LaBeija – TEARS IN MY HENNESSY

Artista queer evolui em sua carreira de produtor e passa a experimentar a voz em suas composições que destilam angústias pós-término

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Ano: 2019
Selo: Coming For Blood
# Faixas: 9
Estilos: Eletrônica
Duração: 35’
Nota: 3
Produção: Joey LaBeija

De acordo com a revista Elephant, a vida noturna das pistas de dança tornou-se um ponto de partida para o desenvolvimento de muitas coleções de museus e galerias de arte nos últimos anos. O que significa que esse espírito, eufórico e juvenil, é agora legitimado como parte integrante da cultura. Para trilhar esse caminho, do submundo das boates até a consagração cult, a nostalgia foi uma das principais estratégias (bem-sucedidas) do Techno.

A música de Joey LaBeija reflete esse tino para o passado ao mesmo tempo em que está devidamente inserida na contemporaneidade. Autor de uma música eletrônica carregada de referências vindas dos anos 1990, LaBeija é um jovem DJ, mas está longe de ser um novato. Ele é, na verdade, um insider reconhecido pelas festas que promove em Nova York. Para além disso, o artista ainda faz parte da família queer “House of LaBeija”, fundada pela drag queen Crystal LaBeija, o que traz um peso especial para as suas credenciais na noite.

A carreira do artista enquanto produtor começou os álbuns Shattered Dreams (2016) e Violator (2017). Ambos apropriam-se do Techno, mas acentuam outras influências vindas dos universos do Hip Hop e do Ballroom. TEARS IN MY HENNESSY, assim como seus antecessores, aventura-se por um percurso metálico, obcecado e sombrio. A diferença deste, no entanto, é que ele marca uma transição para o uso da voz, experimentada através de um vocoder.

TEARS IN MY HENNESSY é um título que alude ao tema central deste trabalho: o fim de um relacionamento. Algo como uma válvula de escape sonoro para sentimentos ruminantes. O nome do LP nos faz pensar na imagem de Joey na balada, chorando sobre o seu copo de conhaque, como alguém que se força a sair de casa e exorcizar seus demônios na bebida. Algumas músicas do disco, como a faixa-título, articulam melhor esse sentimento. Já outras, como “ride”, são mais transitórias, e se parecem mais com os possíveis acessos de raiva do produtor que devem ter acontecido durante essa fase derradeira.

O álbum faz parte da cena eletrônica de NY, mas não pode ser entendido separadamente do contexto drag da metrópole. Uma espécie de reverência, compartilhada por artistas como Yves Tunmor, Lafawndah e Angel Ho, é uma característica muito importante da personalidade de LaBeija. Isso é fundamental para entender a qualidade de seus esforços artísticos. Aqui, o turbilhão emocional que o jovem transforma em música também funciona como o retrato de uma vida noturna, intensa e cosmopolita dividida pelos participantes dos fervos que ele frequenta. TEARS IN MY HENNESSY é dele, parte da sua dor, mas esbarra nas vidas em cintilância de quem está ao seu redor.

(TEARS IN MY HENNESSY em uma música: charity)

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ARTISTA: Joey LaBeija
MARCADORES: Eletrônico

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.