Resenhas

Johnny Marr – Playland

Novo álbum amplia a trilha vitoriosa de *The Messenger*

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Ano: 2014
Selo: New Voodoo
# Faixas: 11
Estilos: Rock, Rock Alternativo, Pop
Duração: 42:04min
Nota: 4.0
Produção: Doviak, Johnny Marr

Johnny Marr permaneceu como colaborador de várias bandas e artistas desde o fim de The Smiths. Fazia sentido tal postura, uma vez que Marr nunca escondeu que seu negócio era fazer parte de um grupo de Rock, colaborar, compor e, acima de tudo, tocar guitarra. Esse sentimento sempre trouxe uma aura de reclusão e mistério, mesmo nos momentos em que tal característica vinha acompanhada de uma exposição maior, caso de Electronic, projeto que assumiu ao lado de Bernard Sumner (New Order) e Neil Tennant (Pet Shop Boys) em fins dos anos 1980 ou quando tentou montar uma banda, The Healers, no início dos anos 2000. Enquanto Morrissey, seu parceiro de primeira hora, calcou sua carreira solo na superexposição, Marr quase foi esquecido em muitos momentos.

Tudo mudou em 2013, quando o excelente The Messenger foi lançado. Era a estreia solo com décadas de carreira, devidamente passadas na estrada, nos estúdios e com toda a inventidade mancuniana intacta. O resultado se traduziu na chegada do álbum às primeiras e mais altas posições das listas de melhores do ano passado. Com Playland, lançado pouco mais de um ano depois, formado a partir de canções compostas na estrada, durante a turnê para promover The Messenger, o destino deve ser o mesmo. O resultado que Marr alcança em algumas canções é impressionante e serve – se é que isso ainda é necessário – para dissipar qualquer dúvida acerca de sua importância na hora de dividir os créditos pela popularidade de The Smiths. Para quem já ouvia o grupo desde o início, tal virtude como compositor não é novidade.

O início de Playland oferece uma senhora faixa dançante, que é Back In The Box, no sentido “pista de dança de 1987 em momento de catarse”. O clima segue na mesma moeda com a infecciosa Easy Money, dona de uma das melodias mais grudentas e Pop feitas em muito tempo. Dynamo, que surge em seguida, poderia ser uma faixa do primeiro álbum do Electronic, com a deliciosa confusão entre guitarras, efeitos de estúdio e seu resultado eminentemente Rock e britânico, como se Marr estivesse numa máquina do tempo apontada para 1989, antes do estouro das bandas de Madchester. Este momento na história parece mesmo ser o preferido de Johnny e não é para menos. A fusão do estilo em sua versão 100% inglesa, oriunda do Rock independente oitentista, devidamente encrocantada por batidas eletrônicas criadas nos clubes – como o Hacienda, em Manchester – pegando emprestadas as novidades que vinham de Chicago e Detroit, tudo muito moderno e bom.

Candidate é a primeira faixa mais ou menos The Smiths que surge por aqui, pedindo por um vocal de Morrissey, apesar de Johnny sair-se excepcionalmente bem nessa tarefa. Baterias vigorosas em loop e um coquetel guitarrístico surgem abrindo e conduzindo 25 Hours, mais uma faixa com DNA dançante e dinâmico. Um clima maravilhosamente datado e 100% chuvoso inunda os alto-falantes na próxima canção, The Trap, esta sim, uma autêntica criação smitheana em todos os sentidos. A faixa título surge trovejante em seguida, com mais levadas oitentistas voltadas para a dança, baixos borrachudos e as seis cordas do protagonista, passeando por várias nuances e timbres, cantando e trazendo os acordes em clássica dinâmica de “pergunta e resposta”. O Rock alternativo oitentista mais clássico é revisitado em Speak Out Reach Out, com vocais dark e arranjo que não faria feio na pista de dança do Crepúsculo de Cubatão. Boys Get Straight, nada careta e com ritmo rapidíssimo reforça o caráter dançante do disco, abrindo o caminho para a faixa mais 2014 de Playland, no sentido “bandas de 2014 saqueando o baú dos 1980”. Guitarras entrecruzadas com sintetizadores dramáticos e bateria levíssima. Mesmo em formato mais contemporâneo, Marr ainda consegue resultado muito acima da média que ouvimos hoje. O encerramento apoteótico com Little King configura uma autêntica criação pertencente ao verbete Rock de Guitarras.

Johnny Marr parece inspirado, bem resolvido, na ponta dos cascos e pronto para entrar na adorável rotina de compor, gravar, excursionar e…gravar de novo. Nós gostamos.

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BOM PARA QUEM OUVE: Morrissey, Kasabian, Damon Albarn
ARTISTA: Johnny Marr

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.