Resenhas

Jonas Carping – Cocktails & Gasoline

Segundo álbum do cantor sueco visita sonoridades totalmente americanas

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Ano: 2015
Selo: Independente
# Faixas: 11
Estilos: Rock Alternativo, Rock, Folk Rock
Duração: 45:25
Nota: 3.5
Produção: Jonas Carping e Martin Karlsson

A Suécia é um país adoravelmente estranho. De suas cidades geladas e que só vêem a luz do sol por poucas horas no dia, surge uma gente peculiar, especialmente músicos e atrizes pornô louras. Fiquem tranquilos porque esta resenha só pretende se ater aos primeiros. Não preciso enumerar a quantidade absurda de bandas e artistas legais que surgiram de lugares como Estocolmo, Gotemburgo e Malmö, tampouco listar nomes de Abba a Amason para comprovar este postulado. O fato é que essa gente continua a vir, continua a dar sua versão suequíssima da música Pop mundial, contaminando agradavelmente as matrizes anglo-americanas que se impuseram desde meados do século passado. Sendo assim, quando surge um sujeito como Jonas Carping, por exemplo, sabemos que os rótulos nunca serão precisos o bastante para definir o escopo de seu trabalho.

Neste Cocktails & Gasoline, seu segundo trabalho, descontado um EP, Jonas se insere uma espécie de Alt.Country sueco ou algo no gênero. É um postulante ao posto de Bruce Springsteen daquelas bandas geladas, mas, como dissemos há pouco, esses parâmetros não são exatamente precisos. Há um tom de Johnny Cash e David Bowie em sua voz e sua sonoridade, francamente, está mais próxima de algo feito nos anos 1980 do que qualquer coisa. Isso, claro, não é ruim e acaba oferecendo agradáveis variações dentro das caixinhas nas quais os cri-críticos de música tentam colocar Jonas e suas canções.

Carping é uma espécie de pós-viking torturado e cantando ao vento algumas bobagens existenciais como se fosse um andarilho sinistro, chegando a lembrar o papel de Rutger Hauer num filme de muito tempo atrás, A Morte Pede Carona. A abertura com The Last Approval é totalmente oitentista, com guitarras pontuando melodia com linha de baixo e bateria lineares, com explosões no refrão e a voz de Jonas perpassando tudo. Higher Ground diminui o ritmo, mas mantém a mesma levada de bateria e concede mais espaço para guitarras sombrias aqui e ali. Damn Old World é mais otimista em sua própria danação sentimental, sobre pessoas que vieram e se foram rápido demais na vida do torturado narrador em tom menor. Peace Of Mind é um lamento a céu aberto, de frente para um Grand Canyon sentimental. Tudo aqui se pretende grandioso e maior que a vida.

Jonas se arvora a evocar essa paisagem grandiosa em canções como Dusk Of Dawn, na qual abusa do seu registro “cashiano” para conferir veracidade à narrativa que menciona as águas barrentas do Mississipi, onde os demônios dormem em meio a um instrumental Rock bem verdadeiro. Em Dive ele evoca seu Springsteen interior, numa narrativa épica sobre superação e auto-ajuda, na base do “se eu posso, você também, cara pálida”. Funciona novamente, principalmente porque Jonas não deixa os arranjos sem detalhes crocantes que fazem a diferença. Aqui, por exemplo, um cello perpassa toda a canção, dando dramaticidade e reverência à epopeia. Em You Move In A Different Way a amplidão do registro vocal é testada em baixo tom, mas vai subindo à medida que a melodia avança, lembrando uma espécie cética e não-romântica de Roy Orbison.

As quatro canções finais compõem uma síntese da proposta de Carping. Down To The Water vem novamente com o cello e andamento subterrâneo, desembocando no registro mais enraivecido de Sleepless Night Blues e Fragrance Of The Past, cheia de nostalgia e pontuações sutilíssimas de banjo, abrindo passagem para a faixa-título, que encerra o disco com um instantâneo da noite, do lado negro da Força, dos subterrâneos da alma, que fornecem combustível para Carping tecer seus contos de gente comum e superação de adversidades. Sua obra é interessante, estranha, bem feita e guarda certo tom de observação distante, mas que parece perto. Ainda ouviremos falar bastante deste sujeito esquisito chamado Jonas Carping.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.