Resenhas

Jonathan Ferr – Cura

Pianista carioca amplia a linguagem do Urban Jazz e passeia brilhantemente por vertentes de Bossa Nova e New Age

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Ano: 2021
Selo: Slap
# Faixas: 9
Estilos: Urban Jazz
Duração: 40'

Um álbum instrumental sem medo das palavras: Cura é o tipo de obra que tem a surpresa como sua maior aliada, uma ferramenta usada por Jonathan Ferr para despertar várias indagações no ouvinte, como as melhores artes costumam fazer, ao invés de entregar respostas para o que ele nunca perguntou.

A primeira dessas surpresas vem na escolha de abrir um disco autoral com “Sino da Igrejinha”, composição de domínio público que dificilmente seria eleita por outros compositores para introduzir a narrativa da obra. Mas Jonathan se aproveita de nossa familiaridade com essa melodia para apresentar um pouco de sua paleta e das cores que acompanharão a audição a partir dali.

A estrutura então definida, das faixas instrumentais com base no piano, é então quebrada com a voz grave de Serjão Loroza em “Esperança”, a quarta música, fazendo o ouvinte ter que confrontar sua própria expectativa de não encontrar versos ao longo do disco. Com uma forte interpretação na declamação da letra, a faixa – munida do estranhamento que ela causa em um primeiro momento, e do pleno deslumbre que ela oferece logo em seguida – reforça a ideia de que esta é uma obra para ser apreciada fora da nossa sensação de ter a audição sob controle, ou a tal da zona de conforto.

É um prazer ter os ouvidos e todo o corpo sendo levados por melodias tão carismáticas a lugares estéticos diversos dentro do selo do Urban Jazz que Jonathan se propõe a trabalhar. Há o lado mais conhecido do Jazz contemporâneo, aquele que flerta com o New Age, em momentos como “Amor, “Sensível” (com o imenso Jacques Morelenbaum) e “Felicidade”, mas também uma aproximação com o Indie na guitarra dessa última e até de algo mais referencialmente brasileiro em “Choro” (com harmonias que remetem à Bossa Nova). Com grande sensibilidade, seu piano guia o ouvinte por uma atmosfera de grande reverberação, quase psicodélica, que faz com que a aura esperançosa da obra, cuja Cura é seu tema central, seja facilmente interpretada.

Só que isso vai de encontro à força com que a já mencionada “Esperança” bate logo na primeira audição. Ao olhá-la inserida no repertório, naquela justaposição que tanto causa espanto, ela aos poucos tem sua intensidade, às vezes raivosa, como o lado mais pesado da esperança, ou o momento mais difícil da Cura – o que só confere ainda mais complexidade ao tema e também à obra. Quando na última faixa, “Caminho”, as palavras surgem novamente (na boca de Viviane Mosé), há também outras vozes em um côro por trás, desafiando nossas expectativas por uma última vez e coroando o álbum como uma das mais belas experiências de interpretação que a música brasileira nos deu neste ano ou nos últimos.

(Cura em uma faixa: “Esperança”)

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ARTISTA: Jonathan Ferr

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.