Resenhas

Jonathan Tadeu – Casa Vazia

Primeiro disco solo do músico traduz sensibilidade poética, ainda que se assemelhe com uma crônica

2,783 total views, no views today

Ano: 2015
Selo: Independente
# Faixas: 10
Estilos: Lo-Fi, Shoegaze, Post-Rock
Nota: 4.0
Produção: Vitor Brauer

Um disco é uma casa. Cada artista tem a possibilidade de decorá-la de acordo com o seu gosto pessoal, dispondo os móveis (instrumentos) de infinitas formas, criando espaços e provocando nos visitantes (ouvintes) novas formas de interação com um espaço que o compositor certamente pode chamar de seu. Embora a decoração seja um fator atraente e, em boa parte das vezes, o que nos chama a atenção no primeiro momento que adentramos as dependências pessoais, esquecemos às vezes de olhar um pouco mais afundo para as partes mais importantes: as estruturas. É a partir disto que começamos a entender o membro do coletivo Geração Pedida Jonathan Tadeu e sua incrível Casa Vazia.

Em sua primeira experiência solo, Jonathan faz questão de elaborar uma metáfora bem construída em torno da tal casa vazia, principalmente se valendo do fato de que, ao entrarmos nela, estamos em contato direto com as bases do compositor. É um disco que, ao mesmo tempo que nos faz conhecer mais do seu imaginário, nos permite uma reflexão acerca das pontes precisas e íntimas que a música estabelece com o artista. Usando-se de uma série samples de vozes, guitarras com bastante delay e reverb e uma estética Lo-fi, ele nos mostra a plena confiança que tem no ouvinte para mostrar o que se passa pela cabeça de Jonathan. Embora isto seja algo que todo músico aspira a demonstrar (ou ao menos tenta), Casa Vazia tem um destaque pela pureza e sinceridade com a qual isto é feito durante as onze músicas.

Uma palavra chave nesta obra é “textura”. A exploração pela casa de Jonathan revela rachaduras, imperfeições e suavidades, entre outros sentimentos táteis que ora são revelados pelo uso de diferentes gêneros para representar seus ideais e pensamentos, ora são mostrados por meio de letras que apresentam fragilidades e pequenos existencialismos. Os momentos mais altos do disco são tanto o começo quanto o fim. A faixa de abertura, Saída, nos induz a encarar este ato de sair como uma escapatória do nosso mundo para ficarmos totalmente passivos e estáticos dentro do universo de Jonathan (talvez por isso seja uma faixa instrumental bastante etérea com diferentes texturas).

Já a que encerra a obra (Martini) nos chama a atenção por combinar o excelente talento da produção de Vitor Brauer (Lupe De Lupe) com o intuito de Jonathan. Ela se desenrola em uma linha instrumental contínua e, a partir disto, são acrescentadas camadas de áudio de vozes dizendo (ou recitando) impressões sobre o cotidiano de seus respectivos enuciantes, nos restando poucas dúvidas que se trata de uma conversa verídica e, portanto, concluindo o caráter autoral, pessoal e poético do álbum.

Jonathan Tadeu produz uma obra impactante que serve de modelo para entender as relações cotidiano-música e também como a sinceridade do autor é extremamente relevante em sua apreciação. Jonathan traz o convite para a exploração de uma Casa Vazia que, inesperadamente, traduz uma enorme quanidade de sentidos e significações para o ouvinte. Uma crônica tocante e muito bem executada.

2,784 total views, no views today

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.