Jonathan Tadeu – Sapucaí

Novo trabalho do músico mineiro traz interessante mistura além do estereótipo do Rock Triste

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Ano: 2018
Selo: Geração Perdida
# Faixas: 10
Estilos: Indie Rock, Eletrônico
Duração: 26:04
Nota: 4.0
Produção: Jonathan Tadeu

Em meados de 2015/2016, como um possível reflexo da instabilidade política e econômica nacional nos jovens, tivemos um episódio marcante na cena alternativa com o advento do Rock Triste. Visto como reflexo da crescente onda de Emo Revival que se instaurava em cenários norte-americanos, bem como uma nítida veneração do Rock noventista, um de seus maiores representantes é o mineiro Jonathan Tadeu e, principalmente, seu disco Queda Livre (2016).

Apesar das referências citadas serem audíveis na sonoridade do compositor, pode parecer até uma certa injustiça enquadrá-lo como um roqueiro triste, como se limitássemos seu escopo criativo a apenas estes sentimentos melancólicos. Com seu terceiro disco, Filho Do Meio (2017), esse título começou a fazer cada vez menos sentido, à medida que percebemos uma complexidade de sentimentos crescente.

Seu mais recente trabalho vem justamente ampliar esta noção limitadora de sua sonoridade. Sapucaí, disco que recebe o nome em homenagem a uma rua de Belo Horizonte que liga diferente bairros do Centro, é um momento que podemos perceber claramente como Jonathan é talentoso em nos traduzir ansiedades de uma forma menos romantizada e um pouco mais realista, mesmo que seja um sentimento bastante subjetivo.

Temos uma sonoridade diversa, misturando elementos da música Ambient, Chillwave com as melodias arrastadas e sensíveis do Shoegaze e Emo. É justamente nesta pluralidade que Jonathan se sente confortável para expressar tudo aquilo que pensa e, particularmente neste álbum isto se traduz em uma espécie de autoanálise na qual são abordados temas como o ano novo, tecnologias, nostalgia, infância, amigos, Deus e angústias.

Em contagem regressiva e imerso em timbres nebulosos, Réveillon começa a desligar as luzes externas e iluminar apenas Jonathan e seus pensamentos, nos preparando para adentrar em suas narrativas. Aquele spoken word famoso de outros momentos do compositor é representado em Interlúdio, evidenciando a confiança que tem em nos compartilhar uma parte concreta de seus raciocínios.

O single Rihanna traz a nostalgia em peso aliada sonhos que o mineiro tinha quando criança, como “trabalhar na locadora do bairro só para ter aquele pôster do Kill Bill”. Vamo Marcar de Sair coloca Minas Gerais e Berlim lado à lado, bebendo do poço da Música Eletrônica dos anos 80. Por fim, quando pensamos que Jonathan daria um encerramento concreto, ele finaliza seu trabalho com Último Gás, uma efusiva jornada e o que parece se apresentar como um retrato sonoro da mente de Jonathan: um emaranhado de texturas e vivências.

Em um trabalho de curadoria de pensamentos, misturado com uma harmonia de diversos referenciais, o compositor nos entrega mais uma expressão de sua totalidade e ter o privilégio de observar isso, é gratificante. Sapucaí é parte de Jonathan Tadeu, assim como ele também é apenas uma parte do disco, que se torna maior a cada ouvinte que tem a oportunidade de apreciá-lo.

(Sapucaí em uma faixa: Último Gás)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.