Resenhas

Juçara Marçal – Encarnado

Tendo a morte como o principal tema, cantora traz carga densa e retratos de uma brasilidade distante de muitos olhos

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Ano: 2014
Selo: Independente
# Faixas: 12
Estilos: MPB, Experimental
Duração: 40:40
Nota: 4.0
Produção: Fernando Sanches

Já conhecida de outros projetos, como Metá Metá e Vésper, é a hora de Juçara Marçal estrear em sua carreira solo. E o ponto de início se dá com o álbum Encarnado, um trabalho forte e visceral que se utiliza quase que em toda sua totalidade a temática da morte de uma maneira poetizada, mas carregada de tensão pela voz de Juçara.

Mesmo estando em carreira solo, Juçara não está totalmente sozinha, e isso é bom. A cantora ainda tem presente consigo a longa parceria de Kiko Dinucci, companheiro de Metá Metá, assumindo as guitarras, desenhando a capa do disco e compondo duas canções. A primeira delas é Ciranda do Aborto – uma das mais belas e fortes letras do disco, que, com versos como “Passa na carne a navalha/Se banha de sangue/Sorri ao chorar/Cobre o amor na mortalha/Pra ele não acordar”, ilustra um aborto clandestino e a morte de algo que mal chegou a conhecer a vida.

A segunda faixa composta por Dinucci é João Carranca, que conta a história de uma prostituta que com o tempo perde sua beleza e, sem clientes, tem de seguir firme junto de uma navalha para sustentar seu filho ainda bebê, filho este que se torna galanteador ao crescer e gera ciúmes na mãe, e que retalha a face do mesmo com sua navalha. Assim sendo, vemos nessas duas faixas de Kiko um retrato da vida de muitos brasileiros que nem sempre é artisticamente exposta, sendo marginalizada e esquecida.

Outra presença ilustre é a de Tom Zé que empresta seu talento compondo a faixa Não Tenha Ódio No Verão, uma canção na qual notamos o toque de Tom com suas utilizações precisas de ritmos oriundos de rimas constantes e um toque irônico e humorado, como em “Comendo brasa no tição/Assando o rabo no fogão/Isso arrebenta uma nação/” e “A pessoa fica cega/Cabeça oca/Sai de pau no bate boca/Rasga a roupa/Grita e berra como louca”, respectivamente.

Apesar da grande presença da morte como tom das canções, a sempre presente temática à cultura afro-brasileira, como o candomblé – comum de outros projetos de Juçara – claro, também se faz presente em sua carreira solo. Neste álbum temos a faixa Odyoya – que significa uma referência a Iemanjá, a mãe das águas – além de Canção Pra Ninar Oxum, que reverencia o orixá dos rios com a canção instrumentalmente mais delicada e doce de todo o álbum.

Dentro do álbum, temos duas faces de uma mesma Juçara. Ela soa ora como encorajadora onipresente – como em Damião (“Dá neles, Damião!/Bate até cansar e quando cansar/Me chama”) -, ora como onisciente narradora de fatos – observado em A Velha Capa Preta (“E a morte anda no mundo/Vestindo mortalha escura/E procurando a criatura/Que espera condenação/”) e dos atos, nem todos violentos, e assim vai interpretando tais fortes letras que giram por vários cenários.

Assim sendo, Encarnado absorve, digere e transpira a brasilidade mais de raiz, mais interiorana e longe de muitos olhos de uma maneira poética e cheia de alma. Uma obra de não tão fácil absorção para muitos, porém, para aqueles que se entregarem viverá uma experiência musical e lírica arrebatadora.

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BOM PARA QUEM OUVE: Metá Metá
MARCADORES: Experimental, MPB

Autor:

Marketeiro, baixista, e sempre ouvindo música. Precisa comer toneladas de arroz com feijão para chegar a ser um Thunderbird (mas faz o que pode).