A cantora e compositora carioca Julia Mestre retorna com seu trabalho mais coeso e maduro até agora: Maravilhosamente Bem. Seu terceiro registro abraça o pop brasileiro dos anos 1980, brincando livremente com elementos de boogie, disco e até mesmo a música latina em uma proposta estética que soa vintage, mas não se rende a um pastiche pelo pastiche. O disco se desdobra também em contrapartes visuais para as canções, deixando ainda mais clara a proposta empoeirada da obra e expandindo o significado das faixas que lidam com temas como amor, desejo e liberdade.
Julia dá um salto interessante em sua carreira. Vinda de um disco que já trazia muitos dos elementos estéticos vistos aqui, Arrepiada (2023), ela parece exercitar esses mesmos estímulos, só que agora com mais intenção e intensidade. Ainda que a MPB de seu primeiro álbum solo – Geminis (2019) – e do Bala Desejo continue aparecendo, Julia não se confina nos limites da sigla, estabelecendo conexões com o pop de sintetizadores e bases eletrônicas. O resultado soa sofisticado, ainda que extremamente dançante.
Com ponto de partida na canção “Sou Fera”, Julia mostra força e vulnerabilidade numa canção que ecoa a obra de Rita Lee e que estabelece os alicerces para o registro. Mas as referências não param por aí: Marina Lima (que não só é homenageada com o verbo “Marinou Limou”, mas participa do registro), Donna Summer e Guilherme Arantes aparecem direta ou indiretamente no hall de inspirações. São canções de grooves elegantes, sintetizadores com timbres únicos, guitarras suingadas e um baixo pulsante, que ora pendem para algo dançante, ora visitam territórios mais introspectivos, ora exalam sensualidade e romance.
Gabriel Quinto, Gabriel Quirino, João Moreira e a própria Julia Mestre assumem a produção dessa obra que por mais que escancare suas referências não cai na armadilha da mera nostalgia. Tudo aqui soa fresco – mais do que a soma das influências. É o som de uma artista que reencontra no passado uma musicalidade capaz de colocá-la no presente, explorando questões íntimas relacionadas a afetos, liberdade e desejo. O disco vai além de um manifesto estético: é o discurso pleno de uma jovem que encontrou sua própria voz.
(Maravilhosamente Bem em uma faixa: “Sou Fera”)
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