Resenhas

Julianna Barwick – Will

Novo álbum belas tem canções com sentimento quase religioso

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Ano: 2016
Selo: Dead Oceans
# Faixas: 9
Estilos: Ambient, Eletrônico, Experimental
Duração: 38:38
Nota: 3.5
Produção: Julianna Barwick

A exemplo de muitos artistas e bandas para cujos lançamentos sou pautado aqui no Monkeybuzz, eu não conhecia a senhorita Julianna Barwick. Esse problema, claro, é de fácil solução nos dias de hoje, com esta ampla gama de informações à nossa disposição. Nessas horas, o primeiro passo que vosso articulista dá em busca da verdade é ir no site do/a resenhado/a. Sempre é uma boa fonte de conhecimento. Pessoalmente, gosto de olhar a agenda de shows, um indicativo contundente da relevância do artista agora, já, neste momento. Julianna, meus caros, está bombando. Tem uma agenda de apresentações até o meio deste mês nos Estados Unidos e uma pequena turnê europeia já agendada para junho, passando por cidades como Paris, Bruxelas, Berlim, Londres, voltando em seguida para a América, retomando a sucessão de shows em cidades da terra do Tio Sam. Interessante.

Bem, Julianna Barwick faz o que chamamos de Ambient Music. O conceito, criado por Brian Eno na primeira metade dos anos 1970 aponta para uma forma de música que se mescla ao que nos cerca, seja isto sonoro ou não, passando a fazer parte, sem que percebamos, deste “ambiente” que está ao nosso redor. Para isso é preciso, por definição, que a música seja capaz de passar despercebida enquanto a notamos. Sim, é paradoxal assim mesmo e precisa ser assim. Eno fez obras primas com este conceito, pensando em ambientes fechados, como aeroportos, e abertos como, bem, o próprio planeta Terra. Julianna não é tão ambiciosa e não faz de Will, seu mais novo álbum, um tratado de abrangência no campo da música experimental, o que não significa, no entanto, que ele seja “fácil”.

As nove canções que compõem o álbum são todas compostas tendo em mente a utilização de loops, ou seja, repetições de acordes e/ou notas, geralmente executados num piano ou teclado, se valendo de repetição e sendo mescladas com vocais etéreos ou outros instrumentos eletrônicos. Só que, ao contrário de Eno, por exemplo, Julianna parte de uma fonte de inspiração bem nítida: os anos 1970/80. Sua abordagem é pela via da música de gente como Kate Bush e de bandas como Cocteau Twins, gente que nos fazia pensar, em forma de música, em passeios pelas florestas chuvosas da Inglaterra ou mesmo em terras mais fantásticas. Vozes, sons, climas da natureza mágica, elemental, essencial fornecem o pano de fundo para que Julianna Barwick empreenda sua abordagem experimental/ambient da coisa.

Canções como St.Apolonia e Wist têm duração inferior a três minutos, mas não abrem mão de canalizar grande potencial visual no ouvinte mais atento, literalmente dando chance deste viajar sem sair do lugar. Faixas maiores oferecem possibilidades ainda maiores. Nebula, por exemplo, possibilita ao ouvinte ver a técnica de Barwick em toda a sua extensão. O ponto de partida é um loop subterrâneo que pavimenta toda a canção, enquanto vozes e outros efeitos caem do céu, como se fossem chuva, como se não houvesse outro jeito, evocando até certo sentimento religioso. Beached, logo em seguida, oferece o outro lado. Enquanto a faixa anterior evocava elementos chuvosos e cinzentos, ainda que belíssimos, aqui temos a memória de um dia na praia, entre amigos, mas é possível ver que está frio, a praia está vazia e quase chegamos a ouvir o ancestral verso de Tom Jobim: “as praias desertas continuam esperando por nós dois”.

O início de Heading Home tem pianos que lembram bastante o que Brian Eno fez em seu Ambient Music Vol.1: Music For Airports, clássica obra de 1977, mas sem o uso dos métodos de gravação revolucionários. Aqui há a brincadeira de Julianna com a repetição de acordes até certo ponto, dando espaço para sua trama de vocais indistintos, que parecem ressoar no teto de alguma catedral. Sua música é grandiosa, ainda que sutil, se arriscando no quintal das repetições intencionais e da criatividade que surge na base do velho ditado “somos cegos de tanto ver”. Julianna enxerga esses detalhes como se fosse um microscópio ambulante. Tudo por aqui é bem bonito e evoca belas paisagens. Will é um disco quase terapêutico para dias afobados e agressivos.

(Will em uma faixa: Nebula)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.