Resenhas

Jungle – Loving in Stereo

Otimista e ambicioso, terceiro disco confirma evolução natural e mostra duo britânico em sua melhor forma até aqui

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Ano: 2021
Selo: Caiola Records/AWAL Recordings
# Faixas: 14
Estilos: Funk, Disco
Duração: 40'
Produção: Jungle

Quando Jungle lançou For Ever em 2018, a narrativa era clara: o que começou como um duo fazendo música em casa era agora um grande projeto colaborativo que tinha sua sonoridade expandida devidamente, ao passo que vários outros músicos foram incorporados ao que agora seria uma banda. O disco, então, tem até hoje essa cara de descobertas de uma nova potência, de novos lugares aonde sua música poderia chegar enquanto volume, percussividade e soma de vozes. Loving in Stereo chega como resultado natural do processo que ali começava, dando passos mais firmes em uma musicalidade mais segura e, ao mesmo tempo, ambiciosa.

Com o duo original fazendo as vezes de maestros do Funk e da Disco, o álbum tem suas faixas entrelaçadas, gerando uma unidade interessante que pode sim ser ignorada na era do streaming (e a audição frequente do modo aleatório e em playlists) para quem quiser focar só nos hits. E não são poucos: “Keep Moving” anunciou o disco situando toda sua estética e aparece aqui na abertura da obra, ditando o ritmo da audição, enquanto “Romeo” (com participação de Bas) se destaca como o “hino good vibes” que um ano como este merece. Ao passo que “Truth” e “All of the Time” vêm para convidar o ouvinte dança e “Talk About It” nem convida, já puxa pelo braço direto para a pista. Dos menores detalhes aos grandes elementos, toda a obra comunica uma vida colorida, animada e inquieta para ser vivida.

Isso se liga diretamente ao momento pandêmico em que Loving in Stereo foi confeccionado, e Jungle não esconde que o disco tem como propósito ser a trilha sonora do pós-pandemia. São músicas sobre sentir-se à vontade sob a luz do sol (“Bonnie Hill”), sair dançando pela rua sem consequências (“No Rules”) e parar de refletir sobre a passagem do tempo (“Lifting You”). Cada faixa expressa fortemente o que os músicos viviam na solidão, medo e incerteza que caracterizaram o isolamento e seu tédio causados pela quarentena. É um disco feito de sonhos, de alegrias otimistas, beira a utopia.

Muito disso é construído a partir do nosso imaginário coletivo, formado pela indústria cultural – o título Loving in Stereo, o “amor ao molde do aparelho de som” (em tradução bem livre), tem tudo a ver com isso. As referências nostálgicas, de uma década de 1980 que ou nem vivemos ou só testemunhamos enquanto muito jovens, remetem a uma ideia de épocas mais simples e sonhadoras, que é o que a memória acaba por guardar. Tem gosto tanto da ingenuidade de assistir à Sessão da Tarde (principalmente nas últimas faixas) quanto a da felicidade posada da era do TikTok (como a videografia do disco apresenta). Com o selo Jungle de qualidade, virou um álbum de sorrisos sinceros embalados pela excelência de um grupo que atingiu sua melhor forma.

(Loving in Stereo em uma faixa: “All of the Time”)

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ARTISTA: Jungle

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.