Justin Timberlake – Man of the Woods

Músico erra no tom ao propor um retorno às raízes

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Ano: 2018
Selo: RCA
# Faixas: 16
Estilos: Pop
Duração: 65:54
Nota: 1.5
Produção: Justin Timberlake, Danja, Larrance Dopson, Jerome "J-Roc" Harmon, Eric Hudson, Elliott Ives, Rob Knox, The Neptunes, Timbaland

Desde que aposentou-se da carreira como frontman da boyband N’Sync, Justin Timberlake tem ascencionado como entertainer de multidões com seu trabalho solo. Sua trajetória dentro do Pop mainstream sempre foi muito bem sucedida: seus álbuns Justified, FutureSex/LoveShow e The 20/20 Experience, carregados por uma experiência dançante, mas inclinados ao R&B, ajudaram Timberlake a construir uma imagem de artista, mais do que competente, cool.

Man of the Woods, o quinto de sua carreira, aproveita-sa da onda estadunidense de “volta às raizes” e, assim como fizeram Lady Gaga com seu álbum Joanne ou Miley Cyrus em Younger Now, propõe um trabalho diferenciado, focado no Country e ambientado em paragens interioranas do país. Man of the Woods é um álbum sobre a natureza, mas, mais do que isso, uma homenagem à família de Timberlake.

Man Of The Woods, no entanto, dificilmente se resume ao espectro do Country e do Folk e tenta executar uma manobra de misturar a esses gêneros a pegada já conhecida de seu público, ou seja, elementos do R&B e do Hip Hop. É, de acordo com o músico, um trabalho de música “Americana misturada à bateria eletrônica 808”.

Essa estratégia, por si só, apesar de soar ousada para uma primeira impressão, faz sentido. Muitas das propostas interessantes da música contemporânea resultam de misturas de gêneros distintos. O movimento é, aliás, um fenômenos consagrado pela indústria musical, haja vista a repercussão de nomes como Ed Sheeran ou Bruno Mars, que mesclam fórmulas vindas de diversas frentes, e que jamais podem ser acusados de fazer música de difícil digestão.

O que, contrariando expectativas, não é o caso Timberlake: aqui a fusão do estilos acontece de maneira apressada, superficial, como se ambas as frentes sofressem um cancelamento de fase. É um fenômeno que soa estranho aos ouvidos, anti-intuitivo, e distante do que a música do artista pretende ser: cativante, grudenta e imediata. Não é uma guinada na trajetória do músico, como se este enveredasse por um caminho experimental, é apenas uma falta de aprofundamento na proposição. A produção de algumas faixas parece sobrepor forçosamente ideias distintas em um mesmo espaço de tempo.

Para além da produção confusa, soma-se o marketing problemático. No trailer de apresentação do álbum, Timberlake aparece na natureza, andando ao lado de cavalos, ajoelhando em cenários descampados, clamando – como dissemos – um retorno às raízes, à sua verdade fundamental. Entretanto, fica difícil acreditar que um milionário da indústria do entretenimento tenha tamanha intimidade com o universo da “natureza selvagem”. Mais difícil ainda é empatizar com a figura de um artista que após evoluir dentro de um universo herdado da música negra, agora, sendo sério, abandona pretensamente suas influências para abraçar valores como família e pátria.

E apesar da maquiagem fugere urbem, os primeiros clipes mudam de cenário e pintam um universo distópico. O vídeo de Filthy faz referência a Steve Jobs, e o de Supplies mostra Justin Timberlake sentado em frente a um painel da crise, no qual aparecem notícias de Harvey Weinstein, da crise de refugiados e assim por diante. Em seguida, o músico liberta as pessoas da cadeia capitalista, da realidade virtual e, enfim, da subjugação política, sempre de uma maneira extremamente caricata. Novamente, fica difícil simpatizar com a face crítica de Timberlake, um artista que sempre foi extremamente conivente, se nutriu e prosperou dentro do establishment do “sistema”.

É preciso dizer que sobressaem alguns momentos inspirados em Man of the Woods, em especial quando as músicas baixam o tom. Morning Light tem uma aura evocativa, Flannel um coro de vozes que fazem pensar nas igrejas do interior americano e Man Of The Woods, a faixa-título, traz um ingenuidade que faz bem ao clima do álbum. Mas, em geral, o incômodo que sobressai em Man Of The Woods alude ao mesmo de Jaden Smith em Syre, ambos acusados de fake wokeness (ou fake deepness): a auto-conivência e a auto-bajulação a que artista se submete partindo de uma posição extremamente privilegiada está em descompasso com o poder de alcance da obra.

(Man of the Woods em uma música: Livin Off the Land)

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BOM PARA QUEM OUVE: Pharrell, Ed Sheeran, Robin Thicke
MARCADORES: Pop

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.