Resenhas

Kali Uchis – Sin Miedo (Del Amor Y Otro Demonios) ∞

Na maior imersão em ritmos latinos de sua carreira, Kali – acompanhada de produção encorpada – é ousada, honesta e certeira

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Ano: 2020
Selo: Interscope/Virgin/EMI
# Faixas: 13
Estilos: Latin R&B, Latin Pop, Reggaeton, Bolero
Duração: 34'
Produção: Albert Hype, Jon Leone, RVNES, Tainy, Josh Crocker e outros

Sabe quando você conhece a casa de um amigo pela primeira vez e aí uma nova dimensão da personalidade daquela pessoa é descoberta também? Faz toda a diferença observar alguém no conforto do lar, à vontade em seu habitat natural. E Sin Miedo (del Amor Y Otros Demonios) (2020) é esse primeiro rolê na casa da amiga Kali Uchis, com quem a gente já curtiu, cantou e dançou no antecessor Isolation (2017). Agora, somos convidados a visitar outro ambiente de sua individualidade. E esse ambiente apresenta uma imersão na latinidade – como anuncia o título, referência ao livro de Gabriel García Marquez, de 1994, ano em que Kali nasceu.

Em seu primeiro projeto inteiramente em espanhol (com pitadas certeiras de inglês), a cantora americana-colombiana se reapresenta mais despreocupada, livre e, ao mesmo tempo, decidida e autêntica. São 34 minutos de passeio pelos ritmos que moldaram e fazem parte da persona de Kali – o Bolero, o Reggaeton, o Pop e Soul Latino. Cada faixa traz uma vibe diferente e o conjunto delas cria uma fotografia sonora apuradíssima desta terra natal subjetiva onde Kali vive e cria, agora com muito mais autonomia do que em seu primeiro disco.

Essa maturidade é nítida na energia de Sin Miedo, principalmente na parte técnica da coisa: a produção está mais encorpada, os vocais mais limpos e ousados e as letras menos fúteis – aqui temos uma mulher que é soberana de si e as ótimas “fue mejor” (com PARTYNEXTDOOR) e “¡aquí yo mando!” (com Rico Nasty) são exemplos disso, expressos em dois estilos bem diferentes. Outro destaque entre as participações é “te pongo mal(prendelo)”, com a dupla Jowell & Randy, um Perreo escorregadio e perfeito para o flow dos três.

Os momentos mais brilhantes de Sin Miedo são aqueles nos quais é possível ver Kali dessa forma: sem receios, ousada, honesta. A faixa de abertura, “la luna enamorada”, é uma releitura impecável do bolero setentista dos cubanos Los Zafiros e já deixa bem explícita qual é a atmosfera do disco; “que te pedí//”, cover da cubana e rainha do Soul Latino La Lupe, segue a mesma linha romântica y dramática. A cinematográfica “vaya com dios”, que parece ter sido feita para embalar alguma aventura amorosa de James Bond na Colômbia, tem menos de 3 minutos e não desperdiça um segundo sequer: é a melhor performance vocal de Kali e a produção, do inglês Josh Crock (colaborador também em Isolation), é destaque do disco. E claro, os reggaetons – Kali é craque em temperá-los com seu próprio estilo, como na batida minimalista e psicodélica de “no eres tu(soy yo)” e também em “de nadie”, que remete a “Controlla” de Drake (ou seja: hit de verdade).

2020 parece ser um momento especial para a música latina. Bad Bunny encabeça a lista do Spotify dos artistas mais ouvidos do ano, desbancando nomes como Drake e The Weeknd, e o Reggaeton segue sendo tocado, chupinhado e copiado à exaustão. Mas, para um artista bilíngue, fugir da hegemonia da língua inglesa é sempre um risco. Em Sin Miedo (Del Amor Y Otros Demonios), Kali aposta grande em seu próprio talento de criar – e por isso não erra.

(Sin Miedo (Del Amor Y Otros Demonios) em uma faixa: “vaya com dios”)

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ARTISTA: Kali Uchis