Resenhas

Kamaal Williams – Wu Hen

Em doses certeiras, britânico mescla variações harmônicas do Jazz a possibilidades rítmicas da música eletrônica

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Ano: 2020
Selo: Black Focus
# Faixas: 10
Estilos: Jazz, Jazz Fusion, House
Duração: 39
Produção: Kamaal Williams

Aqueles 39 minutos garantidos de música boa: Wu Hen traz Kamaal Williams fazendo jus ao que esperamos dele – ou seja, um diálogo espertíssimo entre vertentes contemporâneas do Jazz que se abre para um grande número de influências, do R&B ao House.

Ao longo das 10 faixas, o britânico evidencia sua vontade de tratar o álbum como uma obra fechada, mais do que um registro do que ele e seus músicos comparsas podem compor e/ou improvisar juntos. Há um caráter quase cinematográfico na maneira com que ele desenvolve a narrativa, com diferentes cores, cortes e figurantes a cada cena (ou música).

“Street Dreams”, a primeira faixa, faz as vezes de “introdução” mesmo. Enquanto ela traz aquele espírito de orquestra que afina os instrumentos antes da apresentação, ela também convida o ouvinte ao estado que seu título comunica. Iniciados os sonhos, Williams não economiza energia na bateria pulsante de “One More Time”, que recebe aos poucos outros timbres acompanhando seu ritmo acelerado. A faixa emenda diretamente na seguinte, “1989”, que estende aquele clima em um compasso mais lento, quase letárgico.

Se o álbum traz vários momentos contemplativos, seus maiores méritos estão nas músicas tomadas por um clima de caos harmônico – aquele que o Jazz oferece tão bem. É o caso de “Pigalle”, amparada por uma confluência de vozes em andamento frenético que deixa nossos ouvidos estupefatos e querendo mais. A dobradinha “Big Rick” e “Save Me”, dois lados de um mesmo momento musical, traz a primeira faixa preparando terreno, por meio de elementos eletrônicos, para um clima dançante

Quando “Mr. Wu” começa, esses dois cenários anteriores (o frenético e o dançante/Eletrônico) se fundem no clímax absoluto da obra. É interessante como Williams equilibra com maestria dois pensamentos musicais tão diferentes – ora, se o Jazz se baseia em caminhos inesperados, a música Eletrônica é toda calcada em repetições. Fluente nas duas linguagens, ele apresenta uma linha não tão tênue assim entre ambas e constrói toda a faixa nessa intersecção, aproveitando principalmente breves solos de bateria que ajudam a quebrar o ritmo e dar novo fôlego aos andamentos.

Depois dela, duas outras faixas se propõem a encerrar a narrativa sem pressa e – veja só – sem percussão, mas com muitas surpresas. Primeiro, “Save Me” aposta no minimalismo para acompanhar o vocal da cantora Lauren Faith, na única música do disco com letra. Em seguida, “Early Prayer” começa com um diálogo e traz o saxofone como protagonista, por cima de sintetizadores com notas alongadas, quase monótonas.

É o despertar para o mundo pós-Wu Hen. As luzes do cinema se acendem sem a agitação de “Pigalle” e “Mr. Wu”, o que é justo, já que esses momentos de tamanha riqueza musical são melhor aproveitados sem risco de “overdose”. Kamaal Williams sabe disso e preparou uma grande obra que desenvolve suas qualidades na medida ideal – e, com o perdão do trocadilho, no tempo certo.

(Wu Hen em uma faixa: “Mr. Wu”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.