Resenhas

Karriem Riggins – Headnod Suite

Segundo disco de produtor e baterista é uma aventura entre interlúdios bem produzidos

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Ano: 2017
Selo: Stones Throw Records
# Faixas: 29
Estilos: Hip Hop,
Duração: 60:07
Nota: 3.5
Produção: Karriem Riggin

Entre diversos fatores, os grandes discos de Hip Hop ganham o status que tem pela construção extremamente imersiva de suas composições. De clássicos de A Tribe Called Quest até To Pimp A Butterfly, de Kendrick Lamar, incluindo a faceta mais Pop do gênero, como os registros de Kanye West, esta experiência de mergulho no universo particular de cada álbum é construída de diversas formas, mas um grande responsável comum entre estes exemplos é a presença de interlúdios. Por vezes injustiçados, uma boa colocação de pequenas faixas instrumentais (ou não) entre composições maiores traz extrema complexidade para um disco, e um bom uso do formato pode às vezes mudar drasticamente a análise que fazemos de uma obra.

Considerando esta importância, o produtor e baterista norte-americano Karriem Riggins decidiu ampliar consideravelmente o espaço que estes interlúdios costumam ganhar nos discos, produzindo um trabalho que é ao mesmo tempo curioso e instigante. Segundo álbum de Karriem, Headnod Suite é uma construção de 29 faixas que exploram batidas de Hip Hop de naturezas diversas, como se fossem microcosmos, cada um dotado de significados próprios mas se relacionando com os demais. Não se deve encarar o trabalho como uma beatape, pois as faixas não estão incompletas esperando um rapper declamar versos. Elas próprias têm uma mensagem pronta, que pode ser transmitida tanto pelas frases usadas quase como instrumentos, quanto pela construção do ambiente único de cada composição.

Há duas maneiras de se apreciar o trabalho de Karriem. Uma reside em uma visão mais abrangente das quase trinta faixas, considerando cada uma como uma nova curva dramática nesta grande narrativa. Entre influências claras de Jazz, flertes com o R&B e um toque de experimentalismo, o disco vai nos guiando por este mundo de referências do baterista e, mesmo que cada composição não ultrapasse a marca dos três minutos, elas já são o suficiente para delimitar o universo no qual estamos imersos. A outra maneira é mais objetiva, prestando atenção na construção individual de cada batida e a maneira como ela se usa de cada instrumento e timbre para compor seus humores. Em poucas palavras, é a curtição da batida, o que nos faz encarar o disco de forma como se fosse o grande laboratório de Karriem, um espaço onde até um erro, evidenciado em alguma construção simples ou com aspecto inacabado, tem grande valor no conjunto geral da obra.

O segundo disco de Karriem Riggins pode ser analisado entre estes dois vieses, mas também pode apresentar novas análises compostas de diferentes dosagens destes dois aspectos. O álbum é instigante e bastante imersivo, afinal é composto de uma série de interlúdios fascinantes. Pode ser que alguém argumente que o interlúdio só faz sentido se encaixado em composições no sentido mais formal do termo. Mas a complexidade e o feeling com o qual são compostas as quase 30 batidas de Headnod Suite criam esta pluralidade de sentidos tão interessante para seu desempenho geral.

Um cosmo composto de microcosmos.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.