Resenhas

Kate Bush – Aerial

Um experimento longo e poético no qual Kate Bush consegue transformar singelezas em Pop de primeira grandeza

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Selo: EMI / Columbia
# Faixas: 8
Estilos: Barouque Pop, Art Rock
Duração: 80'
Produção: Kate Bush

Há um espaço de 12 anos entre o lançamento de The Red Shoes (1993) e Aerial (2005). Para compensar, Kate Bush lança aqui um disco duplo com quase uma hora e meia de música e que busca celebrar “o céu, o mar e o canto dos pássaros”. Parece meio papo de hippie, porém Kate havia passado esse tempo afastada da música, vivendo um momento família, focada na criação de seu filho – é natural que ela volte mais aberta à beleza do mundo. E o resultado é um disco assustadoramente belo, tão belo quanto as coisas que ela deseja celebrar.

Aerial é dividido em dois universos temáticos. Em seu lançamento original, o disco 1 era “A sea of honey”, isto é, o lado mar, e o disco 2 era “A sky of honey”, o lado céu – os pássaros estão onipresentes. Não há uma explicação clara, porém esse segundo disco, a partir de 2010, passa a ser lançado como uma única faixa chamada “A Sky of Honey”, com 42 minutos de duração – essa é a versão que se encontra atualmente disponível nas plataformas de streaming.

Esse conceito céu-mar-pássaros também está dito na capa de Aerial: olhando rápido, parece um céu com sol caindo atrás do mar, em meio a montanhas estilizadas que se refletem nesse mar. Essas montanhas da capa, na verdade, são formadas por uma faixa de áudio – daquelas que aparecem no seu editor de áudio – com o canto de um “blackbird”, pássaro comum na Europa (em português, seu nome é melro, mas o Brasil não é um de seus habitats, por isso não é um nome comum por aqui).

Enfim, conceitos cabeçudos à parte, Aerial não é um disco difícil ou supercomplexo: é a mesma Kate Bush de sempre tensionando a música Pop e levando-a a outros caminhos. E aqui, inclui-se o ponto de que a sua vida caseira da maternidade influencia de modo interessante essas canções. A faixa “Mrs. Bartolozzi”, por exemplo, narra o dia de uma mulher que limpa a casa, cuida de tudo e depois senta-se para assistir à máquina de lavar funcionar, até que, de algum modo bastante poético, a máquina de abertura frontal se transforma no próprio mar, a banhar seus pés na lavanderia. Quantos poetas e compositores poderiam pensar em uma cena como essa?

Aerial também pode ser definido pelo seu complexo emaranhado de gêneros: música Pop, música clássica, Art Rock, música celta, música renascentista, reggae e até flamenco se mesclam num amálgama bastante intrincado. Você só nota esses gêneros e consegue identificá-los se estiver muito atento – eles permeiam e enriquecem discretamente esse universo particular que Kate Bush cria aqui. Ela é capaz de nos envolver em um disco longo e até denso, porém com um caráter ainda muito Pop.

Vale frisar, que entre relançamentos e nas mudanças, algumas vezes a faixa final tem uma troca muito importante: há falas entre as canções que em alguns lançamentos são ditas pelo australiano Rolf Harris, em outros pelo filho de Kate, Albert McIntosh, conhecido como Bertie. Ele, aliás, é responsável pelo retorno da mãe aos palcos em 2014. Kate Bush não fazia shows desde 1979, porém ele pediu repetidas vezes por seu retorno, o que resultou numa pequena turnê em 2014. A cantora fez uma residência no Hammersmith Apollo, em Londres, com ingressos esgotados durante 22 shows. Por causa dos shows, nesse ano seus 11 álbuns entraram, ao mesmo tempo, no Top 75 de vendas do Reino Unido, um recorde.

Aerial é um disco de uma Kate reclusa, mãe de família, à parte do show biz ou das obrigações contratuais. Por isso, é um álbum muito livre, muito múltiplo, em que ela consegue captar o que vê de belo no mundo e transforma isso em canções Pops e que ficam em nossa cabeça. Esse disco é um ponto altíssimo desse modus operandi de Kate, de conseguir transformar coisas extremamente complexas em canções Pop. É um talento raro de uma artista em constante construção. E é belo demais vê-la em seu estado da arte!

(Aerial em uma faixa: “Pi”)

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ARTISTA: Kate Bush

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