Resenhas

Kate Bush – The Dreaming

Mais experimental e extravagante, quarto disco – recebido com desconfiança pela crítica na época – incrementa o “drama” de Kate Bush

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Ano: 1982
Selo: Noble And Bright
# Faixas: 10
Estilos: Art Rock
Duração: 42'
Produção: Kate Bush

Em seu quarto disco, The Dreaming – gestado durante um ano e gravado no Abbey Road –, Kate Bush assina a produção das 10 faixas para dar um passo além no Art Rock. As possibilidades dos sintetizadores foram decisivas para a criação de uma linguagem que extrapolasse as linhas de piano.

O escolhido de Bush foi um sampler Fairlight CMI, um dos primeiros da história, lançado em 1979. Temos composições mais experimentais, em um universo com a teatralidade ainda mais acentuada, impulsionado pelo drama e a versatilidade vocal da britânica. Na época em que foi lançado, o trabalho não foi bem aceito pela crítica, mas hoje é visto como uma espécie de divisor entre o Punk e o New Wave.

“Muito esquisito. Está óbvio que ela está tentando ser menos comercial”, avaliou Neil Tennant, quando ainda escrevia para a revista Smash Hits, antes de engatar o Pet Shop Boy. Kate Bush foi a primeira mulher a chegar ao topo das paradas do Reino Unido com uma música autoral – “Wuthering Heights”, do disco The Kick Inside (1978) – e a ter um disco em primeiro lugar, Never For Ever (1980). Graças a sua esquisitice e preciosismo na produção, The Dreaming chegou ao terceiro lugar, mas hoje possui uma legião de adoradores de suas músicas cheias de simbolismo. O vocabulário da artista vai desde o período Vitoriano, passando por David Bowie, sem contar as mitologias e pequenas pistas espalhadas.

Há uma trágica e intensa história de amor em “Houdini”, do ponto de vista da esposa do famoso ilusionista Harry Houdini – um drama digno de cinema. Uma parceria com David Gilmour no backing vocal, em “Pull Out The Pin”, a faixa que também conta com o marcante refrão “I Love Life!”, barulhos de carro e um grave marcado. A faixa de abertura, a agitada “Sat In Your Lap”, foi a primeira escrita para o disco e surgiu após um show do Stevie Wonder. Em “Leave It Open”, ela flerta com o Rock, ao passo que experimenta as possibilidades da edição de voz. Se chegaram a duvidar de sua capacidade como artista, para além de cantora e compositora, o trabalho cumpre seu papel.

À sua maneira, os excessos do disco também ajudam a contar essa história de independência e autonomia para contar a própria história – agora em todos os mínimos detalhes. Nos primeiros discos, há faixas mais palatáveis ao público acostumado com suas canções Pop, ainda que um pouco esquisitas. Conforme analisa a repórter da Pitchfork, Daphne Carr, em resenha publicada do disco em 2019, tudo no disco vai contra a ideia da mulher feminina e agradável. “A voz dela estava muito alta, propositalmente estridente, em muitas – duplicadas, em camadas, chamando e respondendo a si mesmas, indisciplinada”, comenta a jornalista.

Segundo entrevista de Bush ao jornal The Independent, de 2016, o fim da gravação do disco representa o momento em que ela decidiu parar de fazer shows: “Não foi planejado, porque gostei dos primeiros shows. Na época, o plano era fazer mais dois álbuns e outro show. Mas, quando cheguei ao final do The Dreaming, ele disparou um pouco, porque me tornei muito mais envolvida no processo de gravação. E também, toda vez que termino um álbum, entro em projetos visuais e, mesmo que sejam peças muito curtas, ainda dão uma enorme quantidade de trabalho. Então comecei a me afastar da coisa de ser uma artista de shows para uma que faz visuais”. A reclusão dos palcos durou 35 anos, entre 1979 e 2014.

(The Dreaming em uma faixa: “Pull Out The Pin”)

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ARTISTA: Kate Bush

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