Resenhas

Katy J Pearson – Return

Álbum de estreia mergulha no Folk “puro” de maneira simples e comovente

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Ano: 2020
Selo: Heavenly Recordings
# Faixas: 10
Estilos: Folk, Singer-songwriter
Duração: 44'
Produção: Ali Chant

Com uma vasta oferta de gêneros musicais para se apreciar e explorar, os artistas encontram um número cada vez maior de possibilidades de combinações. Há gêneros mais abertos a fusões do que outros, mas, em resumo, todos admitem um certo grau de influência de outros gêneros. E, em um mundo dominado pela música eletrônica, muitas vezes nos esquecemos que um dos gêneros mais prolíficos neste campo de misturas é o Folk. Flertes com a música eletrônica, com um Pop mais chiclete, com o Rock, ou até mesmo com o Metal são algumas das possibilidades de diálogos bem-sucedidos com este gênero. Os motivos pelos quais o Folk se mostra um ótimo ingrediente a ser misturado são vários, desde a sinceridade profunda de suas narrativas até os arranjos emocionantes que nos propõem uma identificação acolhedora. Mas, para a compositora Katy J Pearson, o Folk é uma partícula indivisível e, a partir dele, ela colhe tudo que precisa para colocar ao mundo uma expressão autêntica e sincera de sua persona.

Apesar de um nome relativamente novo, Katy não é uma novata, tendo aprendido algumas duras lições sobre o mercado musical. Ela e seu irmão Rob formavam o duo Pop Ardyn quando eram adolescentes e encerraram o projeto por conta de uma restrita liberdade criativa que a gravadora colocava sobre os irmãos. Mesmo assim, seu ímpeto criativo permaneceu intenso e, agora, Katy lança seu disco de estreia, tomando o controle criativo totalmente para si, minimizando influência externas. O resultado é Return, que não poderia ter um título mais simbólico. Katy retorna ao Folk primordial, aquele que tem poucos excessos e que não procura outras fontes de inspiração para tornar-se algo maior.

Talvez pelas experiências passadas com o controle excessivo de gravadoras, Katy alce voos mais altos neste disco. O foco às células primordiais do Folk permeia dos arranjos musicais às letras. Da produção do disco à engenharia de som, das letras à forma como canta. A produção afiada de Ali Chant (Perfume Genius, Aldous Harding, Soccer Mommy) dá ao registro uma aura marcante dos anos 1970, e a capa vintage do disco reforça isso ainda mais. A ideia não é que aquela sonoridade típica e estridente de gravadores analógicos seja uma mera escolha estética, para deixar as coisas “tipo” Folk. O que acontece é justamente o contrário. Katy é inegavelmente intrínseca ao Folk e seria um erro colocá-la em um ambiente que não reforçasse isso. Os timbres de violão são escolhidos precisamente para ressaltar a delicadeza dos dedilhados. As harmonias vocais se encaixam perfeitamente, nos alcançando no âmago da emoção.

Os violinos harmônicos definem os primeiros tons do disco em “Tonight”, canção animada que aproveita da amplitude da voz de Katy para nos provocar diferentes sensações. “Return” é mais branda e, a partir de seu dedilhado suave, sentimos ternura em cada vibrato de sua voz, uma ótima escolha para nomear o registro. “Hey You” traz uma circunstância dramática, influência clara da teatralidade de Kate Bush. “Take Me Back The Radio” tem um toque de Pop leve, que nos envolve como se fosse uma grande viagem pelas estradas americanas. Por fim, resta apenas “Waiting For The Day”, com seu violão seresteiro acompanhado de uma sutil flauta que conduz o último suspiro de sentimento, encerrando uma genuína obra do Folk contemporâneo.

Katy J Pearson entrega uma estreia envolvente, tanto pela autenticidade de suas canções quanto pelo monumento que ergue em homenagem ao Folk. Em Return, tudo é minimamente calculado, mas existe um espaço entre as camadas instrumentais que apenas o sentimento pode preencher. E este sentimento fervoroso provém tanto de Katy, quanto a nossa experiência subjetiva para o disco. É aí que reside o principal motivo de sua devoção ao Folk puro: intensificar e aumentar o espaço para que a emoção surja à flor da pele.

(Return em uma faixa: “Hey You”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.