Resenhas

Kele – Trick

Vocalista de Bloc Party grava disco insinuante

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Ano: 2014
Selo: Lilac Music
# Faixas: 9
Estilos: Dance, Eletrônica, Dance Alternativo
Duração: 38:25min
Nota: 3.5
Produção: Kele Okereke

Quem conhece Kelechukwu “Kele” Rowland Okereke gosta dele. Não bastasse escolher as gloriosas cores rubro-negras para revestir as imagens de seu segundo trabalho, Trick, ele agora encurtou seu nome, perdeu completamente o pudor ao compor, tocar, produzir e gravar um álbum totalmente voltado para uma música dançante e silenciosa ao mesmo tempo, usando uma estética insinuante e sutil. É quase uma trilha sonora para dançar no escuro, no quarto, bem acompanhado e pensando safadezas. A ideia é essa, o mote é esse e tudo funciona por aqui.

Aquele roqueiro tímido e talentoso, guitarrista e líder de Bloc Party, ainda existe em Kele. O sujeito sempre foi bom compositor e vocalista, guiou sua banda por caminhos que variaram do Indie Rock genérico do início dos anos 2000, evoluindo para trabalhos com mais posicionamento político (sobretudo o segundo disco, A Weekend In The City, 2007) para uma aproximação faiscante com a música para dançar (em Intimacy, 2008) e o inevitável primeiro álbum solo, The Boxer, de 2010. Mesmo que Bloc Party tenha retornado em 2012 para um trabalho mais enguitarrado, a desenvoltura de Kele com os ritmos mais dançantes foi notável, a ponto de lançar remixes de algumas faixas da banda em compilações. Além disso, o sujeito tornou-se um discreto militante das diferenças, engajado à distância na luta pelos direitos dos homossexuais (ele se assumiu em 2010) e jamais permitindo que tal comprometimento político atrapalhasse seus trabalhos, pelo contrário. Tal condição forneceu mais foco e precisão às canções de Kele. Este novíssimo álbum solo é a prova definitiva.

Antes de mais nada, é admirável que Trick seja um esforço solitário. Gravado em Londres e Nova York, autoproduzido, o álbum tem dois focos: a atualização das influências dançantes de Kele, muito mais afeitas ao Dubstep e ao UK Garage do que a reminiscências dos anos 1990. Além disso, o grande mérito do álbum é encontrar a moldura sonora ideal para a surpreendente forma vocal do rapaz. Kele está cantando melhor que nunca, totalmente disposto a oferecer uma versão 2014 de álbuns sensuais dos tempos idos, de gente como Prince e grupos como Ohio Players, ainda que a estética seja totalmente diferente.

Ele se sai bem especialmente em The New Rules, com sample de chamada de celular não completada e batida hipnótica; em Walk Tall, cheia de efeitos e letra no formato pergunta/reposta, turbinado por sintetizadores em looping. On The Other Side também chega lânguida e calcada na repetição de fraseados e batidas, abrindo o espaço para a rapidez e balanço de Everything You Wanted. Unholy Toughts é a única faixa que olha um pouco para o terreno Rock, com andamento rápido, guitarra sutil e refrão épico. O encerramento com All The Things I Could Never Say é soterrado de efeitos e fraseados de sintetizador, criando a impressão de um leve e estranhamente acolhedor clima de pesadelo, nunca explodindo em refrão, mas usando com sapiência a alternância entre vocais, instrumentos e o próprio silêncio cúmplice.

Criativo, semi-conceitual, bem excecutado e elegante. Estes são alguns adjetivos que cabem como uma luva em Trick.

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BOM PARA QUEM OUVE: Prince, Burial, LCD Soundsystem
ARTISTA: Kele

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.