Resenhas

Kelis – Food

Com produção de Dave Sitek, disco vem cheio de surpresas e rico em diversos sabores

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Ano: 2014
Selo: Ninja Tune
# Faixas: 13
Estilos: R&B, Alt-R&B, Soul
Duração: 50:05
Nota: 3.5

Conheci Kelis em 1999 com sua faixa de estreia Caught Out There, que eu curtia, mas não o suficiente para decidir acompanhar de perto sua carreira (lembrando eu obviamente não trabalhava com música na época para me preocupar com isso). E é claro que eu ouvi Milkshake em 2003 com o mundo inteiro, mas nunca mais fui atrás da moça até ouvir este Food, um disco que não só eu aprovei muito, como me deu vontade de ir atrás daquilo dela que eu não conheço ainda.

Parte disso veio sim de uma identificação com suas metáforas. Assim como a cantora, eu também gosto de cozinhar (embora em um nível extremamente inferior, já que ela é formada pela renomada academia Le Cordon Bleu, na França e eu, bem, singo uns blogs de receita) e, como vi ela declarar em uma entrevista, pelo mesmo motivo: “Eu gosto é de comer”.

A questão é que os temas da cozinha vem aqui em dois níveis, na minha percepção. O primeiro é o de “sensações” que a comida te passa como qualquer arte – te lembra pessoas, lugares, épocas etc. Dentro da comunidade afro-descendente nos EUA, existe o conceito de soul food, uma culinária que historicamente remete ao passado do povo do lado de cá do Atlântico e que tem como característica uma boa dose de gordura em frituras e misturas de carnes.

Ao mesmo tempo, isso de soul food tem um quê de comida caseira, de algo sentimental – que é o segundo aspecto do disco. Como ela comentou no lançamento, muitos dos títulos das faixas vieram do prato que ela tinha cozinhado pra banda e pro produtor Dave Sitek (TV on the Radio. Tem uma coisa meio família, meio de algo dividido no calor da cozinha mesmo.

Nas letras, Kelis canta sobre as dificuldades de ser mãe solteira, mas com uma atitude muito positiva, muito “pra frente” e com muita força – como eu conhecia daquelas músicas de antigamente. Aqui, ela deixa aquela agressividade de lado e surge com um ímpeto de viver bem muito interessante – e o que é a gastronomia senão um grande investimento em qualidade de vida?

Food é um disco cheio de surpresas. Ele é tão eletrônico quanto é “de banda”, tão nostálgico quanto conemporâneo. De repente, você começa a ouvir alguma coisa que te dá um nó na mente, até perceber que é um grupo de meninas (CSS falando em português (no início de Cobbler). Logo depois, há um dueto meio Folk, meio voz e violão (Bless the Telephone). Apenas dois exemplos do quanto a obra é dinâmica, sem perder coração.

O que fica é a sensação de “álbum de família” que o disco traz, ao colocar sons que Kelis ouvia quando criança sendo feito ao modo de hoje. É um trabalho caprichado que vai ficar um bom tempo com cara de que acabou de sair do forno. Delicie-se.

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BOM PARA QUEM OUVE: Neneh Cherry, Erykah Badu, Lauryn Hill
ARTISTA: Kelis
MARCADORES: Alt-R&B, R&B, Soul

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.