Resenhas

Kendrick Lamar – Mr. Morale & The Big Steppers

Masculinidade negra, os perigos da tecnologia e da fama, traumas geracionais – e momentos de genialidade e confusão

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Ano: 2022
Selo: pgLang
# Faixas: 18
Estilos: Rap
Duração: 73'
Produção: Sounwave, DJ Dahi, Pharrell Williams, The Alchemist e outros

Uma semana antes de Mr. Morales & The Big Steppers (2022), primeiro disco de Kendrick Lamar em cinco anos, o artista lançou – como de costume, para inaugurar novos ciclos de álbuns –“The Heart part. 5”. O single veio acompanhado de um clipe no qual o rapper se transforma, com auxílio da tecnologia “deep fake”, em algumas celebridades masculinas negras controversas da cultura americana, como Kanye West, Jussie Smollett e OJ Simpson. Ele ainda atua como Kobe Bryant e faz um verso/homenagem na perspectiva do finado rapper Nipsey Hussle – sem deixar de pontuar a mais recente grande polêmica da internet ao se transformar em Will Smith, que estapeou  Chris Rock na última edição do Oscar. “In a land where hurt people hurt more people, fuck calling it culture”, ele rima logo depois de se transformar no ator. Com beat baseado em sample de Marvin Gaye, “The Heart part. 5”, assim como suas predecessoras da série, antecipa os temas do disco que viria. Nos seus pouco mais de cinco minutos, a ótima música dá amostras dos principais tópicos de Mr. Morales & The Big Steppers — masculinidade negra, seus traumas e responsabilidades e como a tecnologia e a internet mais atrapalham do que ajudam na compreensão dos desdobramentos desses temas (com uma obsessão com a “cultura do cancelamento”, em específico).

Somada a “The Heart part. 5”, a arte de capa do disco fez o retorno de Kendrick parecer, nas redes sociais, com o de um profeta recluso trazendo uma nova revelação a seu povo. Seu trabalho mais pessoal até o momento, o quinto disco de Kendrick Lamar é de uma honestidade ímpar. O problema é que música sincera não necessariamente se traduz em música boa – e Mr. Morale & The Big Steppers pode, por vezes, ser tão inspirador quanto, digamos, ineficiente.

“1855 days, I’ve been going through something” é a frase que abre o disco. Com a companhia e narração de sua esposa Whitney Alford, ele compartilha 18 faixas nas quais a presença da terapia na sua vida nos últimos cinco anos fica evidente, ainda que tenha havido uma resistência ao processo, como aponta a introdução de “Father Time”, uma conversa entre o casal: “You really need some therapy/ Real nigga need no therapy, fuck you talkin’ about?”. Sua esposa ainda o aconselha a procurar Eckhart Tolle, um autor que é uma espécie de Paulo Coelho alemão, com best-sellers acerca de iluminação espiritual e voz presente em determinados momentos do disco.

(Neste ponto, é preciso dizer que, com tantas opções que o dinheiro oferece, é um pouco inacreditável que Kendrick Lamar tenha escolhido como seu terapeuta um autor de livros de prateleiras de supermercado). Ainda que diga no refrão de “Crown” que “não pode agradar todo mundo”, a produção de Mr. Morales & The Big Steppers é dinâmica, mas também desorientada, disparando para diversas abordagens e perspectivas diferentes. As canções de abordagem mais moderna como “Die Hard” e “Rich Spirit” soam desinteressantes, como se fizessem parte da trilha sonora de Rei Leão, de Beyoncé, e atrapalham com frequência o andamento do projeto. No geral, as faixas são meio overproduced – com vários créditos de produtores para uma só música — e canções como “Count Me Out” e “Crown” parecem durar mais do que deveriam.

Ainda assim, o trabalho tem seus momentos de genialidade, e algumas das músicas mais indolentes de Kendrick estão lado a lado de algumas das músicas mais sofisticadas de seu catálogo. “United in Grief”, assim como “Worldwide Steppers”, tem Kendrick Lamar como o exímio contista que é, com jogos de palavras realçados pela batida, deixando a atmosfera ainda mais interessante para o rapper desfilar sua habilidade. “Father Time”, a melhor faixa do projeto, é bem-sucedida como discurso e como música. Em três versos, Kendrick redefine a imagem que temos de seu pai como um cara descontraído trazida em good kid m.A.A.d city (2012) e o trabalhador de “DUCKWORTH.” Aqui, o rapper retrata seu pai como responsável por muitos de seus comportamentos danosos enquanto homem – seja infidelidade crônica ou dificuldade de ser empático, entre outros traumas que Kendrick enxerga como geracionais — e os quais pretende interromper. Com refrão tocante na voz de Sampha, o beat tem personalidade numa medida exata em que não atrapalha Kendrick. O que Jay Z faria num remix dessa faixa é brincadeira (e nos faz pensar no quanto 4:44 é realmente incrível).

No ímpeto de interromper essas atitudes geracionais e fertilizar o discurso empático – ou para ser visto como “gente da gente” – Kendrick também explora temas  como a transexualidade, na atmosférica e ruminante “Auntie Diaries”; e aborda o abuso sexual sofrido por sua mãe, projetado nele de alguma forma, na escavação sensível e densa de “Mother I Sober”. Para fechar o disco, ele escolhe “Mirror”. Em seu refrão, sobressai o tom de “não-desculpa”/sem remorso/unapologetic que permeia todo o trabalho. “Sorry I didn’t save the world, my friend/ I was too busy building mine again”. Nesta faixa, Kendrick escolheu se livrar dos fardos públicos (e consequentemente de seus martírios) para curar os traumas geracionais de sua família. Ainda que, para isso, tenha sido necessário um disco confuso, pouco filtrado, que reflete algumas imprecisões – ou simplesmente falhas –, com mais clareza. Parece-me, entretanto, uma troca muito justa, já que ele certamente sai desse processo como um artista e um homem mais maduro, pronto para viver outras experiências e criar mais livre e distante de expectativas públicas.

(Mr. Morale & The Big Steppers em uma faixa: “Father Time” ft. Sampha)

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