Resenhas

Kendrick Lamar – To Pimp A Butterfly

Em poderosíssimo relato sobre sua vida, rapper consegue nos fazer repensar tudo o que conhecemos sobre Rap

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Ano: 2015
Selo: Top Dawg, Aftermath, Interscope
# Faixas: 16
Estilos: Hip Hop, Rap, Jazz Fusion
Duração: 78:51
Nota: 5.0
Produção: Boi-1da, Dave Free, Flying Lotus, KOZ Knxwledge, Pharrell Williams, Thundercat

Existe um certo misticismo ao redor do nome de Kendrick Lamar que somente alguns artistas conseguem obter ao longo de sua carreira. Sua áurea e personalidade podem transpor a sua música em alguns momentos, o que pode ser tanto algo benéfico como extremamente perigoso. Mas, em um meio musical como o Hip Hop, este conflito é ardente, latente e impossível de ser esquecido: você quer ser o melhor, o maior e deseja de todas as formas sair de sua situação normalmente desfavorecida – paradoxos e conflitos de interesse existirão e talvez o que você almejava não seja bem o que te trará felicidades ao final. Esta batalha é sentida da cabeça aos pés em To Pimp a Butterfly, a complexa obra conceitual do rapper de Compton.

A analogia presente no título de seu terceiro álbum diz muito sobre a obra como um todo, muito mais do que poderíamos imaginar. O desabrochar de uma lagarta em uma borboleta, ou seja, a transformação de um inseto quase imperceptível para um ser que encanta a todos é semelhante à passagem de vida do rapper: das ruas para o sucesso. É também a história fictícia de muitos negros nos EUA que não conseguem simplesmente obter algo que pode ser simples para muitos: o reconhecimento. Logo, a obra como um todo flui por todo o egocentrismo de Kendrick , mas pode ser extrapolado para algo muito maior, e é nesta apropriação que ela cresce e merece todos os elogios que vem recebendo.

Esta batalha conflituosa entre toda a metaformose de Kendrick passa pelas 16 faixas do disco, um trabalho de Hip Hop que foge totalmente do que estamos acostumados a ouvir no gênero. Elementos vindos de toda a história da música negra nos EUA, como Jazz, Funk, R&B, a poesia falada de Gill-Scott Heron, Soul, Rap e Hip Hop se misturam em uma performance interpretativa fora do comum de Kendrick. O rapper sempre se mostrou extremamente talentoso, no entanto, temos o seu maior trabalho enquanto interpretação artística: ele canta bêbado, grita, chora e muda o seu timbre de voz por diversas vezes e diferentes modos que somente poderíamos ver em grandes atuações artisticas.

São tantos elementos e complexidade por trás do personagem de Kendrick que chegamos a nos confundir quando estamos o ouvindo – é mesmo um álbum ou uma peça de teatro, um filme? Se, por exemplo, em good kid, m.A.A.d. city tínhamos a noção clara de que o disco se tratava de um filme sobre a vida de Lamar, temos aqui a sensação de estarmos diante de um musical psicodélico em que sonhos e realidade se misturam em vários atos, conscientes e incoscientes que se tornam um só elemento ao fim.

O conflito de Kendrick poderia ser sintetizado na abertura do disco, tamanha a importância da faixa para obra. Wesley’s Theory começa com um sample do cantor jamaicano Boris Gardner dizendo “every nigger is star”, encontra a voz do icone George Clinton trazendo a analogia da borboleta – “when the four corners of this cocoon collide/you’ll slip through the cracks hoping that you’ll survive”- e explicita a relação do rapper com o sucesso -”at first I did love you but now I just wanna fuck”. Talvez a música poderia terminar aí, no meio da Psicodelia e da mistura de Hip Hop com Jazz Fusion, no entanto, uma ligação de Dr. Dre no meio da faixa nos mostra sobre o que é o conflito vivido por Lamar: a sobrevivência. Dre diz: “Remember the first time you came out to the house? /you said you wanted a spot like mine/but remember, anybody can get it/ the hard part is keeping it, motherfucker”. Manter-se uma estrela, logo, se prova o maior desafio. Ter o reconhecimento dos demais como negro, uma batalha.

Daqui pra frente, encontramos momentos brilhantes do músico em faixas como King Kuta, u, These Walls e You Ain’t Gotta Lie- sempre com uma atmosfera de difícil de definição, muitas vezes assustadora e, em outras, somente letárgica, mas sempre carregada de um groove fantástico. A escolha de uma banda de apoio de respeito para acompanhar suas rimas e a batida criada por seus produtores se mostrou certeira. Thundercat dita o rumo do baixo, encontrando aberturas para que seu grave traga drama e intensidade na medida certa, enquanto participações vão passando no meio deste sonho: Bilal, Snoop Dog, Anna Wise e Rapsody, entre outros. Sopros, baterias inusitadas, guitarras e pianos jazzísticos se colocam entre cada instante como a textura que cola todas as referências.

Flying Lotus pode não ser o nome que assina todas as faixas deste colossal e estruturado trabalho, no entanto, podemos perceber muito bem a parceria dele com Lamar nos últimos anos e entender de onde vem essa áura mistíca e onírica da obra carregada, é claro de Jazz e elementos eletrônicos. Mama, talvez seja o maior exemplo, mesmo sem ser creditada a Lotus. Batidas, influências e a mesma visão de música contemporânea são seguidas por Kendrick e muitas vezes acabamos nos perdendo nas referências por não saber até onde esta parceria separa esses talentosos músicos. As diversas metamorfoses que cada faixa apresenta em perfeitas viagens lisérgicas mostram o conflito pessoal que Kendrick passa o tempo tempo: por isso as mudanças bruscas de percursos e os caminhos tortuosos para se chegar ao fim de uma música.

Existem alguns momentos que explicitam a batalha entre chegar à fama e as tentações que se tem: u(“love you is complicated”) e For Sale?, com sua analogia a Lúcifer (Lucy), mas um verso que percorre o disco todo, a cada interlúdio ou pensada pausa, pode dar o tom deste caminho tortuoso que Kendrick passa ao longo do disco: “I remember you was conflicted/misusing your influence/sometimes I did the same/abusing my power, full of resentment/resentment that turned into a deep depression/found myself screaming in the hotel room/I didn’t wanna self destruct The evils of Lucy was all around me so I went running for answers”. É esse narrador que sempre coloca o ouvinte a par do conflito e de toda a sua atmosfera onírica.

A sorte é que não temos problemas de anacronismo na obra. Enquanto Kendrick se apropria do passado, ele o faz de uma forma totalmente coerente e a torna contemporânea, como o Bebop de For Free?, que faria Charles Mingus sorrir com o rapper usando sua voz para criar um instrumento rítmico e rápido que poderia estar na famosa banda do “Angry Man of Jazz”. Mas este é um disco sobretudo de Hip Hop e temos muitas batidas em Alright (produzida por Pharrell), The Blacker the Berry e i. Essa última, aliás, se encaixa muito bem no álbum e tira totalmente a expectativa de que seu novo disco seria muito mais sobre a felicidade de Lamar do que sobre os seus conflitos – temos aqui uma versão muito mais suingada, ao vivo e poderosa da faixa que ganhou o Grammy. Ela se completa ao final com um discurso do rapper em um fictício palanque para uma audiência nervosa: “2015, niggas tired of playin’ victim dawg/Niggas ain’t trying to play vic/ since Tutu how many niggas we done lost?” – lembra ali a morte do amigo Tutu que fez Lamar perceber que a vida no crime iria o matar, logo, o Rap seria a sua saída e se fazer de vítima como negro, não é a solução para um problema muito mais complexo de reconhecimento étnico.

Kendrick Lamar tinha a ideia deste disco muito bem elaborada em sua cabeça: criar uma obra conflituosa que pudesse ao mesmo tempo lhe fazer questionar as suas escolhas de vida e o seu estado atual diante do sucesso, isso de uma forma musicalmente distinta. No entanto, utilizando todos os elementos que fizeram o seu ofício se tornar um dos estilos mais populares do mundo e que representam a cultura negra como Jazz, Funk, Fusion e R&B, o rapper consegue passar a sua mensagem com brilhantismo e inovação. Uma mensagem que vem ecoando na música negra e que foi representada no disco de protesto de D’Angelo, Black Messiah.

Ao final, um diálogo com Tupac (na verdade, uma entrevista fictícia a partir de um áudio perdido do icônico rapper), coloca Kendrick diante da batalha de ser negro em um país que tem dificuldade em enxergá-los diante de seus direitos. Logo, pelas palavras do rapper e diante de seu sucesso, ele diz que todo negro deveria ser uma estrela, mas não é: “every nigger (lagarta) is a star (borboleta)”. A questão aqui é que Lamar conseguiu dizer estas palavras com provavelmente o disco de Rap mais inovador e interessante dos últimos tempos. Na verdade, ele extrapola o estilo e consegue entregar uma peça de arte icônica de música negra que deve aumentar ainda mais a mística ao redor do seu nome. Se good kid, m.A.A.d city já é um clássico, To Pimp a Butterfly é uma obra prima.

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BOM PARA QUEM OUVE: Nujabes, D'Angelo, Flying Lotus
MARCADORES: Hip Hop, Jazz Fusion, Ouça, Rap

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.