Resenhas

Kevin Richard Martin – Return To Solaris

Em tons brandos e imersivos, produtor britânico reinterpreta trilha sonora do clássico da ficção científica soviética dos anos 1970

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Ano: 2021
Selo: Phantom Limb
# Faixas: 10
Estilos: Ambient Music, Drone
Duração: 57'
Produção: Kevin Richard Martin

 

Kevin Richard Martin tem muitos nomes. Consolidando sua carreira na década de 1990, quando a música eletrônica se encontrava em pleno frenesi, o produtor britânico dedicou-se a diferentes espaços e linguagens em prol de um experimentalismo autêntico. Permanecer na zona de conforto nunca foi sua ambição. Para alguns ele é parte fundamental do grupo Techno Animal (atualmente Zonal), projeto que propõe diálogos entre o Hip Hop Industrial e a Ambient Music em colaboração com o produtor Justin Broadrick. Para outras pessoas, Kevin é um assíduo explorador do Grime, Noise e Dancehall sob a alcunha de The Bug. Kevin também é parte de um projeto multiartístico chamado King Midas Sound, propondo integrações com textos do poeta Roger Robinson.

Apesar de ser conhecido por diferentes nomes, sua obra tem um ponto em comum: uma sede experimental insaciável que transita por diferentes terrenos. Tentar prever ou buscar padrões de mudança em sua discografia é algo totalmente sem sentido, pois parte da apreciação de suas composições vem deste lugar de surpresa e imprevisibilidade. Agora, como próximo passo, Kevin encontra na linguagem das trilhas sonoras a oportunidade para prestar homenagem a uma de suas influências mais marcantes. Não se trata de um produtor musical, mas sim do diretor russo Andrei Tarkovsky e sua seminal obra de ficção científica Solaris.

Por meio de um convite do Centro de Artes Vooruit na cidade de Gent, na Bélgica, Kevin recebeu carta branca para reconstruir a trilha sonora de qualquer filme que desejasse. Segundo o produtor, a escolha do filme não foi nenhum sacrifício, já que ele sabia exatamente que Solaris seria sua escolha óbvia. O filme em questão trata de uma missão investigativa a uma estação espacial depois que alguns dos tripulantes entram em colapso emocional. Considerado um clássico do cinema soviético dos anos 1970, a aura misteriosa do filme vem muito da trilha sonora original, repleta de elementos eletrônicos e composta por Eduard Artemyev. Dessa forma, Kevin admitiu em seu Bandcamp que teve certo receio de propor uma releitura para um filme tão emblemático quanto esse. Entretanto, o resultado não parece vir no sentido de impor uma nova atmosfera ao filme, mas sim de coexistir respeitando a tradição da música soviética e os impulsos criativos e dinâmicos de Kevin. Assim, não se trata de um novo Solaris, mas como o próprio nome do disco sugere, um retorno ao mesmo.

Return To Solaris não é a primeira aventura de Kevin pelos campos da trilha sonora. Em seu projeto The Bug, o produtor britânico já havia experimentado com o conceito de uma trilha sonora alternativa, compondo uma releitura das músicas de A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola – lançando sob a forma do disco Tapping The Conversation (1997). Dessa forma, a linguagem cinematográfica e a narrativa são elementos conhecidos de Kevin, fato que se confirma na predileção pela Ambient Music como um dos gêneros mais presentes em sua obra. Em Return To Solaris é exatamente neste campo que ele procura disseminar um novo olhar sobre a obra introspectiva de Tarkovsky. Parece que o produtor capta uma das premissas mais essenciais da ficção científica que é um olhar atento para as relações e contradições humanas, ao invés de explicar detalhadamente as novas tecnologias. Por esta razão, o retorno de Kevin a Solaris não soa estereotipado ou fácil, mas profundo e de muitas camadas. As texturas criadas são as responsáveis por mergulhar o ouvinte nesta sensação de colapso emocional misturada a uma reflexão incessante.

Kevin Richard Martin combate fortemente o lugar comum no qual a Ambient Music muitas vezes é colocada: de uma música para relaxar. Há certamente um envolvimento muito grande com o ouvinte nas construções sonoras, mas o clima, aliado à narrativa de Tarkovsky, não nos deixa relaxar por um segundo sequer. Assim, é possível identificar porque a escolha para ressignificar a trilha de Solaris foi tão natural: pois parecem se apoiar em uma dinâmica parecida. Tanto no filme quanto na nova trilha, há elementos esparsos, calmos e suaves. Porém, o sentimento no conjunto da obra é de tensão – sem apelar para truques como sustos e acordes dissonantes. A linguagem explorada por Kevin em Return To Solaris é justamente a do paradoxo.

(Return To Solaris em uma faixa: “In Love With A Ghost”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.