41 Longfield Street Late ’80s é um álbum colaborativo entre o britânico Kieran Hebden – conhecido pela sua alcunha Four Tet, praticamente uma lenda da música eletrônica – e William Tyler, guitarrista estadunidense atuante no cenário da música contemporânea que se encontra na intersecção do country, do folk e da americana.
O ponto de partida para a construção deste álbum é a nostalgia, materializada mais especificamente na memória de ambos os artistas pela música country dos anos 1980. Depois de se cruzarem em 2013 e firmarem uma amizade intercontinental sustentada pela troca de e-mails, os dois descobriram uma devoção à música country que, por sua vez, significava também um ponto de conexão com seus pais. Tyler possui um currículo robusto no que diz respeito ao estilo Americana, mas é Hebden que toma as decisões executivas e criativas no projeto. O título, aliás, refere-se à casa onde Hebden passou a infância, em Londres, no período mencionado.
A primeira faixa, um cover de Lyle Lovett intitulado “If I Had a Boat”, serve para estabelecer um lugar conceitual e sublinha o fato de que estamos ouvindo um álbum que tem o country como referência. No entanto, logo de cara, a música nos mostra que, apesar dessas narrativas, este é um lugar de experimentação. A versão da dupla para a faixa seria muito difícil de identificar se não fosse o título, já que conta apenas com a base do violão e ruídos atmosféricos desconstruídos.
A música de Hebden é bastante ampla e cheia de pequenas texturas sonoras, como podemos perceber em qualquer projeto de Four Tet. Já a guitarra de Tyler soa surpreendentemente simples, muitas vezes apenas palhetando alguns acordes para formar uma fundação sonora de devaneios mais abstratos. O ponto de encontro entre os dois parece acontecer na faixa “When It Rains”, que possui uma ambiência sonora formada por microfonias saídas direto do amplificador da guitarra e improvisações mais disformes e experimentais.
Afinal, 41 Longfield Street Late ’80s se mostra um disco de música ambiente inspirada pela folktrônica. A paisagem por aqui é feita de elementos díspares e dissonantes, que nem sempre se encaixam. A música country ocupa exclusivamente um lugar de memória e imaginação, sendo uma fatia de DNA visível apenas com microscópio.
Quando a fusão das duas personalidades de fato acontece e se expande em algo novo, as músicas nos levam para atmosfera lentas e disformes. O timbre parece falar mais alto que outros elementos musicais, evocando assim lugares e ações reais: pisar na grama, o farfalhar das folhas no vento e, quem sabe, uma sala onde um toca-discos rodopia com a voz de Loretta Lynn ecoando lá no fundo da memória.
(41 Longfield Street Late ’80s em uma faixa: “Timber”)
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