Resenhas

Kilo Kish – AMERICAN GURL

Com experimentalismo intenso, segundo disco de estúdio da artista americana vai do R&B psicodélico ao synthpop e explora temas existenciais

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Ano: 2022
Selo: Kisha Soundscapes + Audio/Independent
# Faixas: 14
Estilos: R&B, Experimental, Synthpop
Duração: 39'
Produção: Ramond Brady

Em um mar na linha do tempo do mundo musical, encontramos no final dos 2010 uma estética particular que chama a atenção tanto pelas referências que traz à mesa, como pela forma inteligente como as une: o R&B psicodélico. É difícil encarar este movimento como um gênero próprio e “autônomo”, mas é possível determinar suas especificidades. Esta vertente procura unir o ritmo dançante do rap e do R&B (não economizando nas drum machines vintage) a texturas mais experimentais e lisérgicas do que se pode chamar de “explosão indie psicodélica” da metade da década passada. O resultado parece ser um meio termo muito fértil para que produções audiovisuais despertem imagens mais surrealistas – da épica odisseia de 15 minutos em Whack World, de  Tierra Whack até a animação cartunesca e debochada no vídeo de “I’m Good”, de Dizzy Fae.

É curioso como esses artistas encarnam uma tentativa de, digamos, “desesteriotipar” seus gêneros originais, e percorrer timbres mais imprevisíveis de trap e rap – mas também obedecem uma estrutura, algo clássica, de canção. Ao mesmo tempo, em meio à autenticidade, surgem críticas sobre uma suposta falta de profundidade. O surrealismo gráfico e o experimentalismo sonoro, para alguns, representam forma em excesso e pouco conteúdo entregue. Felizmente, isso não passa de um grande equívoco e quem pode provar isso melhor do que ninguém é a rapper e compositora Kilo Kish.

Kilo Kish nunca gostou de ir pelos caminhos mais convencionais. Mesmo em su ótimo disco de estreia, Reflections In Real Time (2016), a rapper nunca pareceu querer produzir apenas mais um disco de hip hop “Soundcloud” – há uma intenção artística muito mais feroz dentro dela. Este primeiro trabalho foi estruturado como se fosse um grande musical e o tema perpassa o fluxo de consciência de uma mulher atravessada por diferentes angústias: psicológicas, sociais, políticas e artísticas. Kilo tem como marca fundamental sua sinceridade, que, em meio a timbres certeiros, dá vida a sentimentos e anseios únicos. Além disso, sua produção costuma se jogar sem medo na combinação e fusão de linguagens, aparentemente, distantes.

Assim, AMERICAN GURL é, naturalmente, o passo seguinte de uma semente que foi plantada em sua estreia. Neste trabalho, a abordagem criativa de Kilo Kish continua totalmente presente, e o que parece ter mudado mais é a natureza de seus temas. O deboche e o sarcasmo são recursos para falar sobre sua própria história, atingindo temas existenciais e universais: busca por propósito, trabalho, morte e amor são abordados com acidez e personalidade. O salto para esse segundo disco é fantástico. Ela carrega consigo o peso da existência moderna – atravessada por acontecimentos históricos e um desgaste total de nossa saúde mental. A mistura entre gêneros musicais é mais aguda, intensa e frenética aqui.

O combo “INTRO”/“AMERICAN GURL” é a melhor maneira de entender como a tradução de dilemas existenciais para sonoridades intensas funciona na prática – aliando a rispidez de timbres que lembram a estranheza do produtor Jai Paul com um batida pop dos anos 1990. “DEATH FANTASY” traz o cantor Miguel no que pode ser melhor descrito como um “ensaio vaporwave/R&B e, de forma surpreendente, “CHOICE COWBOY” une o drum n bass veloz a vocais constantes de protesto. A faixa “ATTENTION POLITICIAN” é um exemplo de como Kilo é ambiciosa nos experimentalismos, tentando distorcer seus timbres o máximo possível, até quase se tornarem ininteligíveis. E quando você acha que não vai ser surpreendido de novo, “SUPER KO LOVE” entrega uma balada indie no melhor estilo synthpop Cansei de Ser Sexy. Por fim, “CONTINUE?” é uma espécie de epílogo, com a ideia de continuar depois de morrer várias vezes em um videogame. Como se Kilo nos perguntasse se queremos continuar nesse mundo maluco.

Em AMERICAN GURL Kilo Kish revela um universo muito particular, no qual o deboche ganha força crítica. A partir de referências que passam por R&B, psicodelia e synthpop e munida de um experimentalismo corajoso, ela fala sobre angústias e o peso de existir de forma impactante e, sobretudo, criativa.

(AMERICAN GURL em uma faixa: “CHOICE COWBOY”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.