Resenhas

Kim Petras – Slut Pop

Imerso na nostalgia e nos excessos dos anos 2000, EP se joga no electropop e aborda sexualidade sem tabus

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Ano: 2022
Selo: Amigo Records
# Faixas: 7
Estilos: Deep Bass, Pop, Electropop
Duração: 15'
Produção: Dr. Luke e Aaron Joseph

Não é novidade que os anos 2000 estão voltando: calças de cintura baixa, fones com fio, celulares flip, bolsinha baguete e (até mesmo) o CD reapareceram. Alguns one-hit wonder da época, como “Potential Breakup Song”, de Aly & Aj, tiveram um crescimento astronômico nas plataformas de streaming e, hiperestimulados pelo TikTok, hits de dance pop tem sido remodelados, como “Cry For You”, do September, em “Beg For You”, de Charli XCX. Até mesmo o new metal, tido como retrocesso do Metal por puristas, encontra espaço para se espremer dentro do Pop, como em algumas canções de Rina Sawayama. A grande questão é que, apesar dos anos 2000 estarem de volta, é curioso como cada artista dá vazão a diferentes pontos desta estética. O revival existe, mas é extremamente plural. Dentro dessa onda de referências (e reverências), a alemã Kim Petras talvez seja uma das artistas que mais compreende a pluralidade que o início do novo milênio colocou em pauta.

Kim é inegavelmente uma cria do Pop 2000. Apesar de uma parte de sua exposição midiática ter vindo durante a adolescência, quando lutou para conseguir realizar sua cirurgia de readequação de gênero, foi seu talento enquanto compositora e intérprete que a colocou numa trajetória ascendente para a fama. No começo da década passada, ela lançou diversos singles produzidos pelo DJ alemão Klaas – todos imersos na farofa electropop, que parecia ser o terreno perfeito para que Kim pudesse se lançar como artista. Após um hiato na metade da década passada, ela retornou ainda mais segura de que o pop dos anos 2000 era seu ambiente mais confortável. Unindo-se ao produtor Dr. Luke (Ke$ha, Katy Perry), ela conquistou seu lugar no pop mundial com uma série de singles chicletes e timbres completamente digitais.

Em 2017, lançou a primeira parte de um disco que chegaria completo no ano seguinte, TURN OFF THE LIGHT (2018) e, neste momento, já estava clara sua proficiência com a estética Y2K. Misturando um proto dubstep com electropop e sempre investindo no visual entre Paris Hilton/Christina Aguilera, ela trouxe o Pop 200 da forma mais pura possível. As conseguintes aparições em premiações, como o VMA 2021, apenas confirmaram que seu coração sempre esteve nas mãos do Pop. Em seu novo EP, as coisas permanecem neste escopo temporal, porém, como boa conhecedora dos 2000s, Kim Petras se aproxima de um momento conhecido na cultura Pop do novo milênio: os escândalos das sex tapes.

Slut Pop se aprofunda ainda mais nos estereótipos da década. Com produção novamente assinada por Dr. Luke, temos 7 faixas caprichadas no sabor da farofa Pop. Timbres potentes de baixo, drum machines bate estaca e uma simplicidade de arranjos são alguns dos elementos reforçados pelo disco. Porém, a cereja no topo no bolo vem desta espécie de manual que Kim faz sobre o que seria o Slut Pop – em tradução livre (e grosseira), o Pop das Piranha. Em alto e bom tom, ela traz letras explícitas que exploram todo o lado desenfreado e liberal da sexualidade, já nos primeiros segundos do disco (“This is slut pop/Whip your dick out/Turn your bitch out”). Assim, o EP não remete aos nos 2000 somente na sonoridade, mas na forma como esta tendência, principalmente trazida pelas sex tapes que vazavam pela internet, é explorada nas letras. Kim cria uma máquina no tempo eficaz que junta o som e o zeitgeist da época. Aquela era Halloween de TURN OFF THE LIGHT cede espaço para uma repleta de rímel, dance pop e putaria.

Na verdade, este novo capítulo de Kim supera completamente seus outros momentos, tamanha a força das composições deste EP. Ainda que se mantenham, as referências aos anos 2000 são remanejadas de forma mais certeira e explosiva, com cada composição revestida de um verniz comum e, ao mesmo tempo, particularidades. “Treat Me Like A Slut”, por exemplo, investe em um grave estridente que sustenta a “sequência de vapo vapo” expressa nas letras. “Superpower Bitch” é agressiva, mostrando um lado de Kim mais feroz e com analogias a sexo oral. “Throat Goat” talvez seja um dos momentos de ouro do Slut Pop, trazendo uma comparação de seus talentos sexuais ao barulho de uma cabra – o auge. Por fim, “Your Wish Is My Command” realiza um flerte com o house, principalmente no baixo sincronizado ao órgão, no suingue e ferocidade do vogue.

Kim Petras garante, com propriedade, seu lugar em meio ao revival dos anos 2000. Slut Pop pode soar um tanto estereotipado e até cômico, mas se não fosse, não seria uma homenagem apropriada a esse recorte da década proposto pela artista. O exagero, o excesso e a extravagância são linguagens características da época – e Kim é habilidosa ao manusear essa nostalgia. Ou, como ela própria pontua, uma “superpower bitch”.

(Slut Pop em uma faixa: “Throat Goat”)

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ARTISTA: Kim Petras

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.