Resenhas

Kimbra – The Golden Echo

Cantora demonstra seu talento e abrangência de suas referências tentando desvincular sua imagem do hit de Gotye

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Ano: 2014
Selo: Warner Bros.
# Faixas: 12
Estilos: Pop, Art Pop, R&B
Duração: 59:57
Nota: 3.0
Produção: Rich Costey

Não há um único texto sobre Kimbra que não comece citando a grande reviravolta em sua carreira que foi ter participado de Somebody That I Used To Know, hit do australiano Gotye que se espalhou como poucos nesta década e que rendeu à cantora dois prêmios Grammy. Esta resenha não poderia ser diferente, pois, além do single ter apresentado ela para o mundo e naturalmente ter plantado uma imagem do que seria seu som na cabeça das pessoas, tudo isso mudou também a maneira com que Kimbra avaliaria sua própria carreira, além de guiar seus próximos passos como artista.

A neozelandesa tinha a faca e o queijo na mão para estourar como artista Pop trabalhando ideias mais acessíveis ao público que de certa forma já havia conquistado. Mas, ao mesmo tempo, era sua chance de ouro para criar algo completamente inusitado e desvincular sua imagem daquilo que aparentemente nunca a representou. Em The Golden Echo, fica claro que Kimbra escolheu o segundo caminho e demonstrou toda sua criatividade e versatilidade. Porém, enquanto isso serve positivamente para dispersar as imagens prévias que haviam se estabelecido no imaginário dos fãs, tanto com o hit de Gotye, quanto com seu pouco criativo Vows, de 2011, também servem para dificultar a criação de uma nova imagem da cantora a partir das tantas avenidas que percorre neste novo trabalho.

Logo em 90s Music, seu primeiro single a ser liberado, todos foram pegos de surpresa com sua capacidade de misturar estilos improváveis, sua sensibilidade na construção de um sucesso – e de seu pirado clipe – e com uma inteligência provocadora que foi vista em outros nomes do Pop no início de suas trajetórias, como M.I.A. ou Azealia Banks. Infelizmente, o potencial encontrado nesta faixa apenas dá sinais de sua existência no restante do disco e consegue estar presente de fato em mais três faixas.

Goldmine consegue o trunfo de ser a mais viciante do disco. 90s Music é mais impressionante, é um cartão de visita muito mais poderoso, mas com o refrão que Kimbra emplaca nesta quarta faixa do disco, é ela que não deve sair do repeat no seu iPod. Se bem trabalhada, pode bater de frente com hits como Fancy, de Iggy Azalea ou Chandelier, de Sia, no quesito refrão poderoso e empolgante. Em Carolina o que se destaca é a produção impecável que dá o clima da faixa e Teen Heat abre bem o disco variando entre momentos calmos e explosivos, um reflexo do que veríamos nas próximas doze canções. Ou seja, basicamente, a cantora entrega o que tem de melhor nas quatro primeiras faixas do disco e é uma pena que o restante não consiga seguir o nível da expectativa criada com as primeiras, principalmente com 90s Music que a elevou a um patamar de inventividade difícil de ser mantido.

De forma alguma os 70% finais do disco são ruins. A cantora se cercou de grandes participações que dão certo peso às produções – apesar da própria ter tentado diminuir a importância de todas elas em algumas entrevistas – indo de Mark Foster (Foster The People) a Omar Rodrigues-Lopez (The Mars Volta), passando por John Legend e Thundercat, se dando ao luxo de ter deixado colaborações com Dave Longstreth (Dirty Projectors) e Flying Lotus de fora. É nos detalhes que estes nomes fazem a diferença e é neles que Kimbra dá sinais de seu talento promissor, mas não chegam a ser suficientes para criar faixas memoráveis.

Miracle, Madhouse e As You Are são ótimos retratos da Kimbra do restante do disco. Boas faixas que dentro de contextos específicos funcionam muito bem, mas não se destacam e apenas emulam referências sem acrescentar nenhum toque particular que nos possibilite identificar Kimbra ali. A primeira relembra uma Dance Music da mesma família da resgatada por Daft Punk, mas com resultados totalmente diferentes. A segunda é puro Michael Jackson, inclusive com a bela voz da cantora perdendo sua personalidade e se aproximando da do rei do Pop. Já a última é uma bela balada que tem o trunfo de conseguir destacar a qualidade das letras do disco, mas que não possui nada de marcante, tornando inevitável a frustração com a ausência do que ouvimos nos melhores singles do álbum.

The Golden Echo é portanto um sucesso do ponto de vista de conseguir mostrar ao mundo a abrangência das referências e do talento de Kimbra como artista Pop. Mas ao mesmo tempo, a cantora se afoga em suas próprias pretensões, mostrando demais, mas deixando de menos a sua marca. A neozelandesa experimenta mais do que a média da música Pop, mas muito menos do que seu potencial nos levou a acreditar que conseguia e bem abaixo do que precisaria para se tornar relevante.

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BOM PARA QUEM OUVE: Robyn, Michael Jackson, St. Vincent
ARTISTA: Kimbra
MARCADORES: Art Pop, Pop, R&B

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.