Resenhas

Kindness – Something Like A War

Terceiro disco de Adam Bainbridge segue no caminho contrário ao sugerido por seus críticos e reafirma a postura questionadora do artista

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Ano: 2019
Selo: Female Energy
# Faixas: 13
Estilos: R&B, Alt-Pop, Jazz
Duração: 47'
Nota: 4
Produção: Adam Bainbridge

O primeiro disco de Kindness, projeto do britânico Adam Bainbridge, foi injustiçado. World, You Need A Change Of Mind (2012) carrega consigo marcas claras do experimentalismo do artista e, consequentemente, revela o seu olhar multidimensional. Ou seja, entre uma loucura e outra, faixas mais Pop (mas, não menos interessantes) apareciam aqui ou ali. No entanto, essa foi a justificativa usada pela crítica musical na época para rotular o trabalho de Bainbridge como “genérico” ou “incoeso”. Para partir de um outro ponto de vista, podemos lembrar que, desde 2009, o artista queer trabalha com produção musical e vive ciceroneado por criativos das mais diversas frentes. Assim, é possível, no mínimo, compreender, de onde vem essa sua veia camaleônica.

A ironia do rótulo atirado pela crítica a ele é a seguinte: ao mesmo tempo em que ela reconhece uma característica de seu trabalho, ela o joga para baixo. Contudo, não seria exatamente essa multiplicidade a grande riqueza do trabalho de Kindness? A resposta para tal questionamento chega com Something Like A War, o mais novo disco do projeto. O comprometimento com esse cataclisma de diferentes perspectivas continua, evidentemente, mas com sofisticação maior de modo que a aventura de tentar enquadrá-lo em um só gênero se torna patética.

Assim, vamos às referências. O título do LP alude ao documentário indiano de mesmo nome, dirigido por Deepa Dhanraj, em 1991. Nele, a história dura de algumas famílias marginais da Índia são contadas. Elas sofrem os reflexos de um severo programa de planejamento familiar que promovia abortos de forma precária. Da obra, ele empresa o não-conformismo que fica claro já nas primeiras faixas. Em “Sibambaneni” (que significa “estamos juntos”, em Zulu), ele canta “Construa seu povo / Faça-os iguais / Semeie o seu diferente”, por exemplo. “Raise Up”, com um jeito Gospel, reforça a ideia e antecipa a celebração que está por vir no decorrer do álbum. 

Quando se aproxima da luta das minorias políticas, Adam entende o seu local de fala. Tudo o que há de ritmos africanos em Something Like A War foi feito por artistas convidados que, de fato, vieram de lá. Eles são protagonistas de sua própria vivência e, evidentemente, de seus próprios sons. A afro-sueca Seinabo Sey combina um Synthpop dançante com mensagens de empatia e auto suficiência (“Lembre-se de tudo o que se perde sem um amor para chamar de seu”). Jazmine Sullivan, por sua vez, traz um afeto envolvente na sedutora “Hard to Believe”. “Samthing’s Interlude” é uma mistura de linhas de instrumentos de sopro que flertam com o Jazz de autoria do músico Samthing Soweto. A faixa título ganha participação da rapper norte-americana Bahamadia – ali, ela reconta a história de uma relação abusiva em cima de um beat distorcido que funciona como um grito de “basta!” para a situação descrita nos versos.

A mistura é intensa, plural, “diferentona”, sim. Mas, é nela que reside o maior trunfo de Something Like A War. Neste disco, o britânico toca em assuntos delicados com uma abordagem tão sensível e inteligente quanto os tópicos em questão merecem. Se tivesse que fazer um disco “focado”, “coeso”, provavelmente iria elipsar algumas das vozes representadas no LP. A coragem para seguir o contrário daquilo que sugeriram as críticas, no fim das contas, foi o fator principal para o sucesso deste disco.

(Something Like A War em uma música: “Raise Up”)

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ARTISTA: Kindness
MARCADORES: Alternative Pop, Jazz, R&B

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.